{"id":7175,"date":"2014-04-13T12:50:07","date_gmt":"2014-04-13T12:50:07","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/04\/13\/iara-iavelberg-filme-desmonta-tese-de-suicidio-de-musa-da-guerrilha\/"},"modified":"2014-04-13T12:50:07","modified_gmt":"2014-04-13T12:50:07","slug":"iara-iavelberg-filme-desmonta-tese-de-suicidio-de-musa-da-guerrilha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/04\/13\/iara-iavelberg-filme-desmonta-tese-de-suicidio-de-musa-da-guerrilha\/","title":{"rendered":"Iara Iavelberg: filme desmonta tese de suic\u00eddio de musa da guerrilha"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 e a vibra\u00e7\u00e3o de Iara pelas pessoas, seus sonhos e sua luta eram intensas. E sua sobrinha Mariana Pamplona reuniu num document\u00e1rio impec\u00e1vel novos elementos a desautorizar a vers\u00e3o de suic\u00eddio<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/revistas\/94\/iara-amava-demais-4861.html\/caixao-lacrado\/image_large\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\" \/>Iara foi morta na Opera\u00e7\u00e3o Paju\u00e7ara, sob comando do delegado Fleury  <!--more-->  <\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A banc\u00e1ria Nilda Cunha tinha 17 anos, era estudante secundarista em Salvador e dividia com o namorado Jaileno Sampaio um apartamento na praia da Pituba. Militavam no Movimento Revolucion\u00e1rio 8 de Outubro (MR-8). Por orienta\u00e7\u00e3o do comando, hospedavam uma companheira de S\u00e3o Paulo, a psic\u00f3loga Iara Iavelberg. Naquele 20 de agosto de 1971, os tr\u00eas estavam entre os que cairiam perante a Opera\u00e7\u00e3o Paju\u00e7ara.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A ofensiva da repress\u00e3o tinha como alvo o ex-capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito Carlos Lamarca, comandante daquele agrupamento guerrilheiro e companheiro de Iara. O efetivo da opera\u00e7\u00e3o contava com mais de 200 homens das For\u00e7as Armadas, policiais federais, do Dops e da PM da Bahia. Segundo escreveu o jornalista Elio Gaspari, o delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury, que saiu de S\u00e3o Paulo para acompanhar a opera\u00e7\u00e3o, passou a m\u00e3o em seu rosto e disse: \u201cVou acabar com essa sua beleza\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Nilda teve os olhos desvendados apenas quando foi levada para diante do corpo de Iara, j\u00e1 baleada e morta. Nas depend\u00eancias da Base A\u00e9rea de Salvador, passou por sess\u00f5es intensas de tortura. Solta semanas depois, debilitada, cega e enlouquecida, morreu em novembro daquele ano, com seu laudo de \u00f3bito atestando \u201cedema cerebral a esclarecer\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Dona Esmeraldina, m\u00e3e de Nilda, passou o resto de seus dias bradando aos quatro cantos que a filha fora violentada, torturada e envenenada. Em outubro do ano seguinte, foi encontrada morta com um fio enrolado no pesco\u00e7o. \u201cSuicidara-se\u201d. A vers\u00e3o policial oficial lembra a da morte do jornalista Vladimir Herzog, tr\u00eas anos adiante.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Iara tamb\u00e9m teve anotado em seu \u00f3bito o termo suic\u00eddio. Teria atirado contra o pr\u00f3prio peito, segundo o laudo do legista Charles Pittex. A morte s\u00f3 foi divulgada um m\u00eas depois, quando a opera\u00e7\u00e3o eliminou Lamarca no interior da Bahia.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A fam\u00edlia foi proibida de abrir o caix\u00e3o lacrado em que lhe entregaram o corpo. Por ordem da tradi\u00e7\u00e3o judaica, foi segregada na ala dos suicidas do Cemit\u00e9rio \u00adIsraelita do Butant\u00e3, em S\u00e3o Paulo. Daquele dia em diante, parte da vida dos pais, \u00adirm\u00e3os e amigos seria dedicada a encontrar provas de que na vida apaixonada, vibrante e dedicada ao triunfo de Iara Iavelberg n\u00e3o havia espa\u00e7o para acreditar que atirasse contra si mesma, aos 27 anos.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Reconstitui\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O document\u00e1rio Em Busca de Iara, que estreou em 27 de mar\u00e7o, na passagem dos 50 anos do golpe, faz parte dessa miss\u00e3o. O filme \u00e9 dirigido por Flavio Frederico, com produ\u00e7\u00e3o e roteiro de sua mulher, Mariana Pamplona. A m\u00e3e de Mariana, Rosa Iavelberg, estava gr\u00e1vida de tr\u00eas meses quando sua irm\u00e3 Iara morreu. Por precau\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deu \u00e0 filha o sobrenome.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Mariana tinha 21 anos quando, em 2003, a fam\u00edlia conseguiu na Justi\u00e7a a exuma\u00e7\u00e3o dos restos mortais da tia junto ao contrariado Cemit\u00e9rio Israelita. O ato, registrado em v\u00eddeo, foi embri\u00e3o do document\u00e1rio. A ideia passou a virar desejo depois que um novo e minucioso laudo assinado pelo legista Daniel Munhoz derrubava possibilidades de que Iara tivesse disparado o tiro que a matou. E tornou-se projeto ap\u00f3s 2006, quando seus restos mortais puderam ser sepultados junto aos dos familiares, momento tamb\u00e9m transformado em ato pol\u00edtico pelo direito \u00e0 mem\u00f3ria e \u00e0 verdade e igualmente registrado pelas c\u00e2meras de Flavio e Mariana.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O diretor j\u00e1 havia filmado fic\u00e7\u00e3o (Boca, 2010) e document\u00e1rios. Capara\u00f3 (2006), sobre a primeira tentativa de resist\u00eancia armada ao golpe, premiado no \u00c9 Tudo Verdade de 2006, tamb\u00e9m tive parceria com Mariana. Ele j\u00e1 conhecia a import\u00e2ncia m\u00edtica de Iara. \u201cMas n\u00e3o sabia ainda que nascia ali um filme \u2013 \u2018O\u2019 filme \u2013 sobre ela. As fic\u00e7\u00f5es eu escolho, mas o document\u00e1rio me escolhe. N\u00e3o era s\u00f3 Iara, era a hist\u00f3ria do Brasil, da Mariana, da fam\u00edlia dela\u201d, diz.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Depois de tomar aquelas primeiras imagens, planejar e colher pessoalmente os depoimentos para o filme \u2013 ao longo de quase oito anos \u2013, Mariana tornou-se ela pr\u00f3pria \u201cpersonagem\u201d e fio condutor. \u201cN\u00e3o estava planejado, mas o filme foi feito assim, e acabei sendo convencida pelo diretor de que esse formato foi coe\u00adrente com a l\u00f3gica da constru\u00e7\u00e3o de um document\u00e1rio\u201d, explica. O fasc\u00ednio pela hist\u00f3ria da tia vinha desde a inf\u00e2ncia, sobretudo da conviv\u00eancia intensa com a av\u00f3 Eva Iavelberg. Mariana era codinome da ativista em sua clandestinidade. Aos 15 anos, a sobrinha leu na \u00edntegra os di\u00e1rios de Lamarca, em que o ex-capit\u00e3o revelava a grande influ\u00eancia intelectual de Iara sobre suas decis\u00f5es e uma paix\u00e3o extrema e incondicional. Os textos publicados num jornal foram mostrados pela m\u00e3e.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A arte-educadora Rosa n\u00e3o era ativista como os irm\u00e3os Samuel, Raul e Iara. Apenas ajudava nos dias de clandestinidade em encontros para levar comida, roupas e afeto. Nos anos 1970, mantinha uma institui\u00e7\u00e3o privada de ensino, Criarte, com proposta pedag\u00f3gica humanista, que viria a se chamar Escola da Vila. Seus depoimentos no filme, assim como dos tios Samuel, Raul e Evelise, situam a narradora num ambiente familiar em que \u00e9 descrita a personalidade, o car\u00e1ter e a energia de Iara Iavelberg, sua beleza e seus cuidados com a apar\u00eancia, feminilidade e a intelig\u00eancia agu\u00e7ada.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">As entrevistas testemunham uma militante influente, que n\u00e3o era simples \u201camante\u201d de Lamarca, como desqualificavam seus perseguidores. Ela apresentava ao capit\u00e3o base te\u00f3rica do marxismo e do socialismo. Tinha ascend\u00eancia intelectual e pol\u00edtica sobre suas decis\u00f5es. E os relatos seguem desenvolvendo sua dedica\u00e7\u00e3o ao movimento, dos treinamentos no Vale do Para\u00edba em 1969 \u00e0 fuga para a Bahia em 1971.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O document\u00e1rio \u00e9 tamb\u00e9m cuidadoso com a ambienta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Uma cena de apenas um minuto, por exemplo, traz uma propaganda das Olimp\u00edadas do Ex\u00e9rcito em meio a imagens de programas musicais festivos da Rede Globo e um texto ufanista que mais imbeciliza do que promove a \u201cjuventude\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Mas o trecho mais importante \u00e9 a incurs\u00e3o em Salvador, a descri\u00e7\u00e3o de como e por que o grupo caiu sob a Opera\u00e7\u00e3o Paju\u00e7ara e a reconstitui\u00e7\u00e3o do cerco ao apartamento. Uma vizinha e a ex-propriet\u00e1ria do im\u00f3vel detalham as cenas em que o apartamento \u00e9 tomado pelo g\u00e1s lacrimog\u00eaneo e esvaziado com militantes presos. Contam como Iara grita \u201cn\u00e3o atirem, eu me rendo\u201d. Ela havia conseguido se esconder, mas acabou descoberta por um menino que voltou para abrir as janelas para sa\u00edda do g\u00e1s e a delatou.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Mariana e Flavio reconstituem o exame de bal\u00edstica feito ap\u00f3s a exuma\u00e7\u00e3o, que descarta a hip\u00f3tese de Iara ter disparado contra si mesma. E o confrontam com o depoimento do m\u00e9dico Lamartine Lima, legista do Instituto Nina Rodrigues e integrante da Junta de Sa\u00fade da Base Naval, que mant\u00e9m a tese do suic\u00eddio. Foi preciso ter sangue frio: \u201cTive vontade de dizer muitas coisas a ele, mas n\u00e3o podia p\u00f4r a perder a entrevista\u201d. O menino que volta \u00e0 cena e v\u00ea Iara tamb\u00e9m \u00e9 localizado pelo casal. \u00c9 Jos\u00e9 Arthur Bagatine, que fez por telefone relatos que ajudariam a desconstruir a vers\u00e3o, mas desistiu de gravar.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Para Mariana, as evid\u00eancias tornam inconceb\u00edvel que muitos tenham acolhido a vers\u00e3o do suic\u00eddio como verdadeira. \u201cMesmo porque, de toda vers\u00e3o dada pela ditadura isentando-se da autoria de crimes, \u00e9 preciso desconfiar.\u201d Est\u00e3o a\u00ed para dar-lhe raz\u00e3o Rubens Paiva, Herzog, \u00adStuart Angel, Virg\u00edlio Gomes da Silva e tantos outros casos que v\u00eam sendo desvendados desde a produ\u00e7\u00e3o do documento Brasil Nunca Mais, pela Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz da \u00adArquidiocese de S\u00e3o Paulo nos anos 1980, at\u00e9 os recentes testemunhos recolhidos pelas comiss\u00f5es da verdade.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">E a verdade precisa vir \u00e0 tona, como dizia dona Eva, m\u00e3e de Iara, em cena gravada em 2003. \u201cPara que todas as gera\u00e7\u00f5es futuras fiquem a par do que aconteceu naquela \u00e9poca. Voc\u00ea acha que uma m\u00e3e esquece quando perde uma filha. Isso vai me doer enquanto eu viver.\u201d Eva Iavelbeg morreria ainda naquele ano. Iara, retirada da ala dos suicidas, repousa ao seu lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Rede Brasil Atual<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A f\u00e9 e a vibra\u00e7\u00e3o de Iara pelas pessoas, seus sonhos e sua luta eram intensas. 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