{"id":961,"date":"2012-06-06T02:54:51","date_gmt":"2012-06-06T02:54:51","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/06\/une-uma-pagina-perdida-da-historia-2\/"},"modified":"2012-06-06T02:54:51","modified_gmt":"2012-06-06T02:54:51","slug":"une-uma-pagina-perdida-da-historia-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/06\/une-uma-pagina-perdida-da-historia-2\/","title":{"rendered":"UNE: Uma p\u00e1gina perdida da hist\u00f3ria*"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A Honestino, Helenira, Umberto, Gildo e Mata Machado, m\u00e1rtires da juventude e do povo brasileiro.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>A bibliografia sobre o movimento estudantil na d\u00e9cada de 1960 tende a considerar que ele teria terminado com a queda do 30\u00ba Congresso da UNE,\u00a0em outubro de 1968, ou, no m\u00e1ximo, com a decreta\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n\u00famero 5, ocorrida em dezembro daquele mesmo ano. Esses autores, em geral, partem de uma concep\u00e7\u00e3o mais restrita do que seja o movimento estudantil, vinculando-o apenas \u00e0s grandes manifesta\u00e7\u00f5es de massas. Passeatas dos 100 mil, no entanto, s\u00e3o acontecimentos relativamente raros em nossa hist\u00f3ria.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o AI-5\u00a0as lutas\u00a0estudantis entraram\u00a0numa fase de refluxo, mas n\u00e3o deixaram de existir. Ainda em abril de 1969 realizou-se uma plen\u00e1ria nacional \u2013 considerada por todos como leg\u00edtima continuadora do 30\u00ba Congresso da UNE. Nela, se elegeu uma nova dire\u00e7\u00e3o na qual Jean Marc Von Der Weid (da AP, A\u00e7\u00e3o Popular) era o presidente. Ao contr\u00e1rio da gest\u00e3o anterior \u2013 composta pelas principais correntes de esquerda, excluindo o PCdoB \u2013, essa era uma composi\u00e7\u00e3o que envolvia apenas a AP e o PCdoB.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na chapa vitoriosa representavam o PCdoB os estudantes Jo\u00e3o de Paula (CE), Helenira Resende (SP), Ronald Rocha (RJ) e Aur\u00e9lio Miguel (BA). Pela AP, al\u00e9m de Jean Marc (SP), havia Honestino Guimar\u00e3es (DF), Valdo Silva, Umberto C\u00e2mara, Jos\u00e9 Carlos da Mata Machado, Dora Rodrigues de Carvalho (MG).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um segundo Conselho Nacional se realizou em julho numa fazenda na Baixada Fluminense. Ali se fizeram as primeiras altera\u00e7\u00f5es na composi\u00e7\u00e3o da diretoria da UNE, com substitui\u00e7\u00f5es de diretores que haviam sido presos. Na ocasi\u00e3o, saiu Jo\u00e3o de Paula , preso no Paran\u00e1, e ingressou Jos\u00e9 Genoino Neto tamb\u00e9m do PCdoB. Pela AP ingressaria Gildo Macedo Lacerda.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Segundo alguns participantes, neste Conselho se reuniram cerca de setenta delegados, representando a maioria dos estados brasileiros. Era um n\u00famero expressivo tendo em vista o clima de repress\u00e3o reinante depois do AI-5. O encontro n\u00e3o chegou ao fim porque na regi\u00e3o ocorreu uma opera\u00e7\u00e3o antiguerrilha do Ex\u00e9rcito, e os delegados, por seguran\u00e7a, tiveram de fugir. Por sorte, desta vez, ningu\u00e9m foi preso.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ser dirigente de uma entidade estudantil naquela \u00e9poca implicava graves riscos, inclusive de vida. Em 1\u00ba de setembro Jean Marc foi preso e muito torturado. Ele s\u00f3 seria libertado em janeiro de 1971, por ter sido um dos 70 presos pol\u00edticos trocados pelo embaixador su\u00ed\u00e7o. Dos diretores desta gest\u00e3o apenas Dora escapou de ser presa, torturada ou morta. Contudo, amargou um longo per\u00edodo de clandestinidade e ex\u00edlio interno.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Depois de um breve impasse sobre como se daria a substitui\u00e7\u00e3o de Jean Marc \u2013 inclusive, se deveria ser substitu\u00eddo ou mantido simbolicamente na presid\u00eancia \u2013, foi decidido que Honestino Guimar\u00e3es assumiria o cargo vago. Ele era, na \u00e9poca, uma das principais lideran\u00e7as da A\u00e7\u00e3o Popular, e muito querido entre os estudantes.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Logo em fevereiro de 1969, antes mesmo da plen\u00e1ria nacional, a ditadura aprovou o famigerado Decreto-lei 477, pelo qual os l\u00edderes estudantis, considerados perigosos \u00e0 ordem ditatorial, ficavam proibidos de se matricular em qualquer estabelecimento de ensino durante tr\u00eas anos. Nova onda de cassa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m atingiu o corpo docente. Os centros acad\u00eamicos livres foram fechados e substitu\u00eddos por entidades atreladas \u00e0 dire\u00e7\u00e3o das escolas. Esse decreto, para muitos, foi o AI-5 da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A diretoria da UNE assumiu a luta contra esse decreto fascista, organizando v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es. Ap\u00f3s a pris\u00e3o de Jean Marc \u2013 e a divulga\u00e7\u00e3o de sua contundente carta-den\u00fancia \u2013, recrudesceu a campanha nacional de den\u00fancias dos crimes da ditadura militar, pela liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos e contra a tortura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um dos atos mais ousados \u2013 e temer\u00e1rios \u2013 desta gest\u00e3o foi a greve com ocupa\u00e7\u00e3o da Faculdade de Filosofia da UFRJ, onde o PCdoB tinha muita for\u00e7a. Era uma resposta \u00e0 tentativa da ditadura de fechar a institui\u00e7\u00e3o. Ocorreram choques violentos com a pol\u00edcia pol\u00edtica e, no final, centenas de estudantes foram presos. Por isso, alguns participantes afirmaram que a forma de luta encontrada n\u00e3o se adequava ao momento de refluxo vivido pelo movimento estudantil e popular.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De fato, a maioria das correntes de esquerda \u2013 incluindo o PCdoB \u2013 n\u00e3o havia avaliado adequadamente a nova correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que se abria no final de 1968. Via o AI-5 apenas como um sinal de fraqueza e isolamento do regime militar. Acreditava que existiam todas as condi\u00e7\u00f5es de retomar o movimento de massas no mesmo patamar do per\u00edodo anterior. Um grave erro que seria respons\u00e1vel por algumas derrotas. Embora ainda houvesse certa margem de manobra dentro de algumas poucas escolas. Isso, no entanto, acabaria nos meses seguintes.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Outro marco importante do movimento estudantil foi a realiza\u00e7\u00e3o de expressivas manifesta\u00e7\u00f5es contra a visita do secret\u00e1rio de Estado estadunidense Nelson Rockfeller.\u00a0N\u00e3o conseguiram reunir o mesmo n\u00famero de pessoas das grandes manifesta\u00e7\u00f5es do ano anterior, quando\u00a0as lutas\u00a0estudantis estavam no seu auge. Contudo,\u00a0n\u00e3o fizeram feio. Jean Marc afirmou que cerca de 30% das faculdades chegaram a paralisar durante dois dias. Estes atos representaram uma derrota \u00e0 ditadura militar, que se gabava de ter acabado com as entidades nacionais estudantis.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os conselhos da UNE continuaram se realizando clandestinamente \u2013 sob uma ditadura cada vez mais violenta. Houve um encontro logo no in\u00edcio de 1970 e outro no m\u00eas de julho na cidade de Salvador. Neste ano sombrio ocorreram atos internacionalistas contra os bombardeios criminosos realizados pelo imperialismo estadunidense contra o povo do Vietn\u00e3 e do Camboja. A UNE , tamb\u00e9m, participou da campanha pelo voto nulo e contra a farsa eleitoral da ditadura. E o resultado desse clima pol\u00edtico foi o alto \u00edndice de votos anulados e em branco naquela elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A diretoria da UNE continuou se reunindo. Entretanto, n\u00e3o podia mais fazer atividades p\u00fablicas. Os diretores da entidade \u2013 cercados por um aparato de seguran\u00e7a \u2013 apareciam de surpresa em assembleias e reuni\u00f5es rel\u00e2mpagos nas escolas. Mantinham contatos espor\u00e1dicos e r\u00e1pidos com os dirigentes dos Diret\u00f3rios Acad\u00eamicos. Uma de suas principais atividades consistia em distribuir o jornal Movimento, \u00f3rg\u00e3o oficial da entidade. Esta era a forma encontrada de dizer \u00e0 ditadura: estamos vivos!<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Esta gest\u00e3o da UNE (1969-1971), presidida por Jean Marc e Honestino Guimar\u00e3es, travou uma luta heroica para manter minimamente organizado o movimento estudantil num per\u00edodo muito dif\u00edcil da hist\u00f3ria brasileira. Como afirmou Gaspari, t\u00ednhamos sa\u00eddo de uma \u201cditadura envergonhada\u201d para ingressarmos numa \u201cditadura escancarada\u201d. A quase totalidade de seus dirigentes nacionais foi presa e barbaramente torturada. V\u00e1rios deles foram assassinados pela repress\u00e3o. Este foi o pre\u00e7o pago para manter tremulando a bandeira da UNE e da resist\u00eancia democr\u00e1tica e popular no Brasil.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Antes mesmo de terminar aquela gest\u00e3o, Helenira Resende e Jos\u00e9 Genoino foram deslocados para a regi\u00e3o do Araguaia, onde se preparava o desencadeamento de uma guerrilha rural. Helenira morreria em combate, Geno\u00edno seria preso e torturado. Jo\u00e3o de Paula , depois de uma passagem por uma base rural do PCdoB no Vale do Ribeira, rumou para o ex\u00edlio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Muitos autores acreditam que\u00a0esses deslocamentos para o campo teriam representado um abandono dos movimentos sociais urbanos pela dire\u00e7\u00e3o do PCdoB, como se\u00a0a grande maioria de seus quadros tivesse sido deslocada para o trabalho de prepara\u00e7\u00e3o da guerrilha rural. Esta ideia, no fundamental, \u00e9 falsa. O Partido, na medida do poss\u00edvel, procurava\u00a0atuar no que existia de movimentos sociais organizados, especialmente o estudantil.\u00a0Lembremos apenas que a repress\u00e3o e as dificuldades organizativas impostas por ela haviam aumentado em escala geom\u00e9trica ap\u00f3s o AI-5.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Contudo, mesmo nos per\u00edodos mais duros, houve certa renova\u00e7\u00e3o de quadros partid\u00e1rios, destacadamente\u00a0jovens. A Uni\u00e3o da Juventude Patri\u00f3tica (UJP) no Rio de Janeiro e o Movimento de Resist\u00eancia Popular (MRP) em S\u00e3o Paulo \u2013 ambos organizados pelo PCdoB entre 1971 e 1973 \u2013 s\u00e3o provas disso.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O Congresso e a diretoria que desapareceram<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando Jos\u00e9 Serra discursou na abertura do congresso de reconstru\u00e7\u00e3o da UNE em 1979, referiu-se a ele como 31\u00ba Congresso. A partir de ent\u00e3o a grande maioria dos autores passou a fazer o mesmo. Esqueceram, no entanto, que j\u00e1 havia ocorrido um outro congresso com a mesma numera\u00e7\u00e3o. Para sermos justos devemos dizer que uma das poucas exce\u00e7\u00f5es \u00e0 regra foi o livro Hist\u00f3ria da UNE, organizado por Nilton Santos e publicado em 1979. Nele consta a realiza\u00e7\u00e3o daquele congresso e, inclusive, \u00e9 publicada uma entrevista com um dos diretores eleitos: Neuton Miranda.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O 31\u00ba Congresso original realizou-se entre setembro e outubro de 1971. Nele, Honestino Guimar\u00e3es se reelegeu para a presid\u00eancia da entidade. Aquela foi uma reuni\u00e3o realizada na mais dura clandestinidade e com a participa\u00e7\u00e3o de poucos delegados, eleitos em encontros estaduais e regionais. Neuton Miranda afirmou: \u201cImpossibilitados de realizarmos grandes reuni\u00f5es, com ampla participa\u00e7\u00e3o, a realiza\u00e7\u00e3o desse congresso envolveu v\u00e1rias fases que iam desde a retirada dos delegados por escola, \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de reuni\u00f5es por estado, \u00e0s regionais e por \u00faltimo uma reuni\u00e3o nacional. Esse processo durou v\u00e1rios meses, tendo come\u00e7ado ainda em 1970\u201d .<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O processo se iniciava nos cursos em reuni\u00f5es convocadas pelos Diret\u00f3rios Acad\u00eamicos, segundo as condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a de cada universidade. Atualmente n\u00e3o existem dados exatos sobre a quantidade de estudantes que participaram dessas reuni\u00f5es. Acredita-se que tenha sido 200 o n\u00famero dos eleitos. Esses, por sua vez, se reuniram em conselhos estaduais ou regionais: um na regi\u00e3o Norte (realizado no Par\u00e1), tr\u00eas no Nordeste ( em sedes na Bahia , em Pernambuco e Cear\u00e1 ), no sul (com sede no Rio Grande do Sul), Minas Gerais, Rio de Janeiro (possivelmente abarcando o Esp\u00edrito Santo), S\u00e3o Paulo e Bras\u00edlia (possivelmente abarcando o Centro-Oeste). Ronald, que nos forneceu estas informa\u00e7\u00f5es, falou que apenas em Minas Gerais foram eleitos 40 delegados e no Rio de Janeiro 20. Delegados eleitos para os encontros regionais e n\u00e3o o nacional.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Foram estes f\u00f3runs que indicaram os representantes para participar do 31\u00ba Congresso da UNE, numa propor\u00e7\u00e3o de um por estado. O indicado j\u00e1 trazia a posi\u00e7\u00e3o da maioria do encontro regional e, possivelmente, os votos para composi\u00e7\u00e3o da nova diretoria. A plen\u00e1ria final se reuniu no Rio de Janeiro e teve a participa\u00e7\u00e3o de algumas dezenas de estudantes. Foi, de fato, um congresso da vanguarda estudantil e n\u00e3o um encontro de massas, como o de Ibi\u00fana. Um congresso realizado nas condi\u00e7\u00f5es que a conjuntura repressiva permitia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Este, portanto, foi o processo mais amplo \u2013 e mais democr\u00e1tico \u2013 que se poderia realizar naquele momento. Por isso, foi reconhecido pelos que ainda atuavam no movimento estudantil. O jornal A Classe Oper\u00e1ria, \u00f3rg\u00e3o oficial do PCdoB, assim anunciou o evento: \u201cA realiza\u00e7\u00e3o vitoriosa do 31\u00ba Congresso da UNE significa novo est\u00edmulo \u00e0 luta das for\u00e7as patri\u00f3ticas e populares. Comprova que \u00e9 poss\u00edvel e indispens\u00e1vel mesmo sob o tac\u00e3o dos militares fascistas, realizar a luta pelos interesses das massas e que a juventude estudiosa poder\u00e1 cumprir com sucesso sua miss\u00e3o de impulsionadora da revolu\u00e7\u00e3o popular\u201d. O Congresso, al\u00e9m da nova diretoria, aprovou uma carta aos estudantes.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A AP e o PCdoB, que ainda mantinham atua\u00e7\u00e3o nas entidades de base, obtiveram uma grande maioria. H\u00e1 de se destacar que, naqueles anos, a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre o PCdoB e a AP se equilibrou, chegando mesmo o primeiro a ter uma pequena vantagem nos f\u00f3runs estaduais e na plen\u00e1ria final do Congresso. Um acordo firmado anteriormente garantiu que AP se mantivesse na presid\u00eancia da entidade e o nome escolhido por consenso foi o de Honestino Guimar\u00e3es. Este j\u00e1 era o presidente, pois havia substitu\u00eddo Jean Marc ap\u00f3s a sua pris\u00e3o em 1969.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O PCdoB, por sua vez, ficou com a maioria dos cargos na diretoria. O Partido elegeu Ronald Rocha (RJ), Marco Aur\u00e9lio (MG), Rufino (CE), Maria Em\u00edlia (BA), Jorge Paiva ( SP) e Lu\u00eds Oscar (RS). A AP indicou Honestino Guimar\u00e3es (DF), Umberto C\u00e2mara (PE), Neuton Miranda (MG), Al\u00edrio Guerra (RN) e Pedro Calmon (RS). Neuton e Al\u00edrio ingressariam no PCdoB entre 1972 e 1973. Como podemos notar ocorreu uma grande renova\u00e7\u00e3o de dirigentes, especialmente entre os comunistas. Uma renova\u00e7\u00e3o que s\u00f3 pode ter sido fruto de um trabalho pol\u00edtico no interior das escolas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A argumenta\u00e7\u00e3o para o n\u00e3o reconhecimento daquele congresso apareceu no pr\u00f3prio livro organizado por Nilton Santos. Nele se afirmava que n\u00e3o foi reconhecido \u201cdevido \u00e0 sua pouca representatividade e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es em que foi realizado\u201d. Outros tentaram remediar a situa\u00e7\u00e3o afirmando que o Congresso de Reconstru\u00e7\u00e3o (1979) foi uma continua\u00e7\u00e3o do congresso de 1971. Por isso teria o mesmo n\u00famero. O problema \u00e9 que \u2013 ao contr\u00e1rio do que aconteceu com o Congresso de Ibi\u00fana \u2013 o 31\u00ba se reuniu, aprovou uma carta-programa e elegeu uma diretoria.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Refutando os que negaram o reconhecimento do congresso de 1971, Ronald Rocha declarou: \u201co argumento \u00e9 inaceit\u00e1vel uma vez que significaria imputar ao movimento estudantil e \u00e0 sua entidade m\u00e1xima a responsabilidade pelas situa\u00e7\u00f5es e limites impostos pelo terrorismo de Estado (&#8230;). Seria deslocar o conceito de representatividade de suas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3rico-sociais de exist\u00eancia\u201d. Posi\u00e7\u00e3o com a qual estou de acordo. N\u00e3o cabe a n\u00f3s \u2013 passados quase 40 anos \u2013 questionarmos a representatividade e a decis\u00e3o soberana daqueles jovens combativos que colocaram suas vidas em risco para manter a entidade de p\u00e9.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Esta gest\u00e3o viveu uma conjuntura ainda mais dif\u00edcil que a anterior. O pr\u00f3prio Neuton Miranda descreve a situa\u00e7\u00e3o: \u201cLogo nos primeiros meses, quase a metade da diretoria foi presa e submetida \u00e0s mais b\u00e1rbaras torturas, o que dificultou em muito o nosso trabalho. O movimento de massas que havia nessa ocasi\u00e3o n\u00e3o era suficientemente forte para permitir que atu\u00e1ssemos abertamente, participando de reuni\u00f5es, assembleias e outras manifesta\u00e7\u00f5es estudantis, em nome da UNE , como ocorria at\u00e9 1968\u201d . Eles tentaram e n\u00e3o conseguiram romper o cerco ditatorial.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1972 a UNE, ao lado das entidades de base, realizou atividades comemorativas do cinquenten\u00e1rio da Semana de Arte Moderna. Era o que dava para fazer naquele momento. Em novembro 11 mil estudantes da USP, em plebiscito, disseram n\u00e3o ao ensino pago. O ministro-coronel Jarbas Passarinho chegou a falar em \u201cconluio da esquerda radical e a classe rica\u201d. O nome da UNE ainda circulava de boca em boca nos corredores das universidades, embora n\u00e3o se pudesse conhecer mais a fisionomia de v\u00e1rios de seus dirigentes.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A UNE continuou sua luta pelos direitos humanos, contra as pris\u00f5es, as torturas e os assassinatos dos opositores ao regime. O \u00e1pice desse processo foram as manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas contra o assassinato do estudante da USP Alexandre Vannucchi Leme, ocorrido em mar\u00e7o de 1973. Este, possivelmente, foi o \u00faltimo acontecimento de que a UNE clandestina, mortalmente ferida, participou. N\u00e3o era mais poss\u00edvel sobreviver naquelas condi\u00e7\u00f5es t\u00e3o desfavor\u00e1veis.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Esta gest\u00e3o heroica resistiu at\u00e9 o final 1973, quando, finalmente, foi destro\u00e7ada pela repress\u00e3o. Honestino Guimar\u00e3es e Umberto C\u00e2mara foram sequestrados e mortos em outubro. No mesmo m\u00eas ca\u00edram Jos\u00e9 Carlos Mata Machado e Gildo Macedo Lacerda. Assim, em poucos dias, os principais dirigentes estudantis da AP-ML foram brutalmente assassinados.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ronald Rocha foi preso e torturado ainda em 1972. Neuton Miranda foi obrigado a entrar na clandestinidade ainda em 1971 e, no ano seguinte, acabou sendo condenado \u00e0 revelia a dois anos de pris\u00e3o. Continuou na dire\u00e7\u00e3o da entidade at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Numa entrevista dada ao Vermelho, Ronald Rocha afirmou: \u201cNunca, por\u00e9m, tomamos a decis\u00e3o de cerrar as portas da entidade ou renunciar aos mandatos. Estou convencido de que essa atitude de resist\u00eancia, sem capitula\u00e7\u00e3o e sem derrota definitiva, facilitou a reorganiza\u00e7\u00e3o da entidade m\u00e1xima dos estudantes brasileiros alguns anos depois, sem uma lacuna abissal que liquidasse a tradi\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria coletivas\u201d. Mesmo depois do seu desmantelamento, nos muros das universidades mutiladas, ainda podia se ler: \u201cA UNE SOMOS N\u00d3S!\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00e3o existem linotipos?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o existem rotativas?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Que importa, meu companheiro?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 sempre uma m\u00e3o altiva<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">pegando um giz ou pincel.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E h\u00e1 muros pela cidade<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">se nos negarem papel\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cIsso \u00e9 hist\u00f3ria, companheiro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Hist\u00f3ria que tu escreveste<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00e0 margem das linotipos,<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00e0 margem da rotativa<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">e das tiras de papel.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Hist\u00f3ria que tu escreveste<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">tendo ideal, m\u00e3o altiva,<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">toco de giz ou pincel\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">(O povo escreve a hist\u00f3ria nas paredes, do comunista M\u00e1rio Lago)<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Agrade\u00e7o especialmente a Ronald Rocha e Neuton Miranda, ex-diretores da UNE, pelas entrevistas concedidas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">* Artigo publicado originalmente no Portal Vermelho em outubro de 2008.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">** Augusto C. Buonicore \u00e9 historiador, secret\u00e1rio-geral da Funda\u00e7\u00e3o Maur\u00edcio Grabois e autor de Marxismo, hist\u00f3ria e revolu\u00e7\u00e3o burguesa: Encontros e desencontros.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">COELHO, Maria Francisca Pinheiro. Jos\u00e9 Genoino: escolhas pol\u00edticas, S\u00e3o Paulo: Centauro, 2007.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">DEPOIMENTO DE Jean Marc ao projeto Mem\u00f3ria do Movimento Estudantil da Funda\u00e7\u00e3o Roberto Marinho.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">DIRCEU, J. &#038; PALMEIRA, V. Abaixo a ditadura: o movimento estudantil contado por seus l\u00edderes, Garamond, 1998.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">FREITAS, Mariano. N\u00f3s, os estudantes, Fortaleza (RE): Livro T\u00e9cnico, 2002.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">MARTINS FILHO, Jo\u00e3o Roberto. Movimento Estudantil e Ditadura Militar (1964-1968), Papirus, 1987.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">PARAN\u00c1, Denise. Entre o sonho e o poder: a trajet\u00f3ria da esquerda brasileira atrav\u00e9s das mem\u00f3rias de Jos\u00e9 Genoino, S\u00e3o Paulo: Gera\u00e7\u00e3o Editorial, 2006.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">PETTA, Augusto. \u201cCongresso da UNE 68: quando a defesa de teses acontece na cadeia\u201d, in Colunas Vermelho.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">POERNER, Artur Jos\u00e9. O Poder Jovem, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1979.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">REIS FILHO, Daniel Aar\u00e3o &#038; MORAES, Pedro de. 68: a paix\u00e3o de uma utopia, FGV, 1988.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">ROMAGNOLI, L. H. &#038; GON\u00c7ALVES, T\u00e2nia. Hist\u00f3ria Imediata: A volta da UNE \u2013 De Ibi\u00fana a Salvador , S\u00e3o Paulo: Alfa-\u00d4mega, 1979.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">SANFELICE, Jos\u00e9 Lu\u00eds. Movimento Estudantil: a UNE e a resist\u00eancia ao golpe de 1964. Autores Associados, 1986.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">SANTOS, Nilton. Hist\u00f3ria da UNE, vol. 1. Depoimentos de ex-dirigentes, Livramento, 1979.<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Honestino, Helenira, Umberto, Gildo e Mata Machado, m\u00e1rtires da juventude e do povo brasileiro. A bibliografia sobre o movimento estudantil na d\u00e9cada de 1960 tende a considerar que ele teria terminado com a queda do 30\u00ba Congresso da UNE,\u00a0em outubro de 1968, ou, no m\u00e1ximo, com a decreta\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n\u00famero 5, ocorrida [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/961"}],"collection":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=961"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/961\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=961"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=961"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=961"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}