{"id":965,"date":"2012-06-06T03:04:04","date_gmt":"2012-06-06T03:04:04","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/06\/ex-governador-de-sao-paulo-da-veredito-suicidio-foi-maquiado-herzog-foi-assassinado-2\/"},"modified":"2012-06-06T03:04:04","modified_gmt":"2012-06-06T03:04:04","slug":"ex-governador-de-sao-paulo-da-veredito-suicidio-foi-maquiado-herzog-foi-assassinado-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/06\/ex-governador-de-sao-paulo-da-veredito-suicidio-foi-maquiado-herzog-foi-assassinado-2\/","title":{"rendered":"Ex-governador de S\u00e3o Paulo d\u00e1 veredito: \u201cSuic\u00eddio foi maquiado. Herzog foi assassinado"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Ex-governador de S\u00e3o Paulo d\u00e1 veredito: \u201cSuic\u00eddio foi maquiado. Herzog foi assassinado no II Ex\u00e9rcito\u201d. E descreve chantagem praticada por militares do DOI-CODI contra um general<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-949\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/PAULOEGYDIO1A-300x225.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"225\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>\n<address \/>Paulo Egydio : os bastidores da crise militar\u00a0  <!--more-->  <\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A Globonews reapresenta nesta ter\u00e7a-feira, \u00e0s onze e cinco da manh\u00e3,\u00a0 o DOSSI\u00ca GLOBONEWS em que o ex-governador Paulo Egydio Martins se torna a primeira autoridade a se oferecer publicamente a depor na Comiss\u00e3o da Verdade. Egydio \u2013 que governou S\u00e3o Paulo de mar\u00e7o de 1975 a mar\u00e7o de 1979 &#8211;\u00a0 descreve com detalhes, na entrevista, cenas de bastidores ocorridas em momentos cr\u00edticos do regime militar, como a crise provocada pelas mortes do jornalista Vladimir Herzog e do oper\u00e1rio Manoel Fiel Filho nas depend\u00eancias do II Ex\u00e9rcito. Pela primeira vez, uma autoridade da \u00e9poca faz uma declara\u00e7\u00e3o\u00a0t\u00e3o direta\u00a0sobre as circunst\u00e2ncias da morte do jornalista: \u201cO suic\u00eddio foi maquiado. Herzog foi assassinado dentro das depend\u00eancias do II Ex\u00e9rcito, na rua Tut\u00f3ia, em S\u00e3o Paulo\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O ex-governador tamb\u00e9m se refere, na entrevista, a um caso que jamais foi esclarecido: uma chantagem praticada por subordinados contra um general do II\u00a0 Ex\u00e9rcito. O fato de n\u00e3o se saber do desfecho da chantagem parece ser uma prova de que ainda h\u00e1 cap\u00edtulos inteiros a serem contados sobre a hist\u00f3ria do regime militar.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Trechos da entrevista:<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>GMN: O senhor revela que o chefe do Estado Maior do II Ex\u00e9rcito foi v\u00edtima de uma chantagem, praticada por dois militares que amea\u00e7avam denunciar publicamente a pr\u00e1tica de torturas no II Ex\u00e9rcito. Que provid\u00eancias o senhor tomou ?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Egydio:<\/strong> \u201cQuando o coronel Erasmo Dias ( secret\u00e1rio de seguran\u00e7a ) me procurou, me disse o seguinte: \u201cGovernador, o general Marques me procurou,nervos\u00edssimo, extremamente tenso, porque um sargento e um cabo, integrantes da equipe do DOI-CODI, foram a ele pedindo um volume de dinheiro. Sen\u00e3o, iriam delatar para a imprensa o que se passava dentro do DOI-CODI. E ele ficou sem saber o que fazer. Veio me pedir se eu podia arranjar esse dinheiro da verba secretra da Secretaria de Seguran\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Quando eu assumi o governo, extingui a verba secreta do gabinete do governador. E disse a Erasmo que a verba secreta da Secretaria de Seguran\u00e7a era de responsabilidade dele. Jamais eu iria intervir. Virei para ele e disse: \u201cErasmo, a decis\u00e3o \u00e9 sua, sobre se vai atender ao Marques ou se n\u00e3o vai atender. Chantagem s\u00f3 tem duas respostas: \u201cOu voc\u00ea mata ou voc\u00ea morre\u201d. Porque qualquer tentativa de aceitar chantagem \u00e9 horr\u00edvel, \u00e9 p\u00e9ssima. \u00c9 minha rea\u00e7\u00e3o pessoal. Voc\u00ea faz o que voc\u00ea quiser fazer\u201d .<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Nunca mais tive retorno dessa conversa. Nada aflorou dessa chantagem. Mas ela mostra o que significa, como quebra de hierarquia militar: a gravidade deste epis\u00f3dio. Porque, quando um cabo e um sargento procuram um general comandante do Estado Maior de um Ex\u00e9rcito e chantageiam pedindo dinheiro para n\u00e3o\u00a0contar o que estava se passando dentro do recinto pertencente a esse mesmo Ex\u00e9rcito, acabou qualquer hierarquia militar, qualquer esp\u00edrito militar. Isso \u00e9 absoluta e totalmente incompreens\u00edvel e inaceit\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>GMN: O fato de esses militares n\u00e3o terem feito a den\u00fancia p\u00fablica n\u00e3o significa que eles podem ter recebido o dinheiro?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Egydio:<\/strong> \u201cEu n\u00e3o saberia lhe responder. A d\u00favida paira. N\u00e3o voltei a conversar com Erasmo. N\u00e3o foi pedida presta\u00e7\u00e3o de contas. A verba era secreta. N\u00e3o estava sujeita \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m. N\u00e3o saberia lhe responder. Posso dizer que sim e posso dizer que n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O Caso Herzog: Egydio pediu a \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a a ficha do jornalista. Conclus\u00e3o: Nada consta.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>GMN : O senhor fez uma reuni\u00e3o com o ent\u00e3o secret\u00e1rio de\u00a0 Cultura, Jos\u00e9 Mindlin; com o coronel Erasmo Dias, secret\u00e1rio de seguran\u00e7a; com o diretor do DOPS, Romeu Tuma e com o representante do SNI, coronel Paiva, para discutir a nomea\u00e7\u00e3o do jornalista Vladimir Herzog para a TV Cultura. Qual foi o resultado da reuni\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Egydio:<\/strong> \u201cQuem me trouxe o problema foi o secret\u00e1rio de Cultura, meu amigo Jos\u00e9 Mindlin, que disse:\u201dEstou recebendo acusa\u00e7\u00f5es de ter escolhido, com muitas dificuldades, um respons\u00e1vel pelo Jornal da Cultura. E esse indiv\u00edduo que escolhi agora est\u00e1 sendo acusado \u2013 por uma imprensa marrom \u2013 de ser comunista\u201d . Eu n\u00e3o tinha a menor id\u00e9ia, c\u00e1 entre n\u00f3s. Se a Globo tinha cinq\u00fcenta por cento de audi\u00eancia, o Jornal da Cultura deveria ter zero v\u00edrgula zero um de audi\u00eancia. Quem era o diretor de jornal da TV Cultura era algo que n\u00e3o estava na minha cabe\u00e7a \u2013\u00a0 de jeito nenhum. Se era comunista, se n\u00e3o era comunista\u2026.Virei para Mindlin: \u201cO problema n\u00e3o \u00e9 meu. \u00c9 seu. Voc\u00ea resolve como quiser\u201d. E Mindlin: \u201cIsso tem me causado inc\u00f4modo. Preciso que voc\u00ea verifique se procede alguma coisa ou n\u00e3o\u201d.\u00a0\u00a0 Numa reuni\u00e3o, deixei instru\u00e7\u00f5es espec\u00edficas : eu queria ter\u00a0 informa\u00e7\u00f5es do Servi\u00e7o Secreto do Ex\u00e9rcito , Marinha e Aeron\u00e1utica e do SNI sobre se alguma coisa constava sobre aquele diretor de jornal da TV Cultura \u2013 de quem eu nunca ouvido o nome antes \u2013 , chamado Vladimir Herzog. Passaram-se dez, quinze dias. Houve outra reuni\u00e3o, em que as mesmas pessoas se reportaram a mim: \u201cN\u00f3s levantamos tudo. Nada consta, senhor governador\u201d. Eu disse: \u201cMindlin, veja a resposta: se nada consta, voc\u00ea fica livre para decidir o que quiser. J\u00e1 cumprimos nossa obriga\u00e7\u00e3o de verificar se procedia uma acusa\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o. Ficou provado que n\u00e3o procede. Voc\u00ea, agora, aja como quiser agir. Quer manter, mantenha. N\u00e3o quer manter, n\u00e3o mant\u00e9m. Ap\u00f3s esse incidente, houve a determina\u00e7\u00e3o se ele comparecer ao DOI-CODI, onde acabou assassinado\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>GMN :Se nada constava contra Vladimir Herzog nos \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o, se a ficha era limpa, como o senhor diz, a pris\u00e3o foi inteiramente\u00a0injustificada. Depois da morte de Vladimir Herzog, o senhor fez esta comunica\u00e7\u00e3o ao presidente Geisel?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Egydio:<\/strong> \u201cFiz. N\u00e3o s\u00f3 fiz esta comunica\u00e7\u00e3o, como eu tinha liberdade com ele de pensar alto. Eu estranhava o que estava se passando, aquele luta intestina, aquela luta em quarto escuro. Voc\u00ea n\u00e3o tem meios de comprovar essas coisas com clareza. Como \u00e9 que voc\u00ea comprova uma tortura ? S\u00f3 assiste a tortura o torturador. E um torturador n\u00e3o vai dedurar outro torturador. Num caso desse aqui, eu dizia para Geisel: \u201cPresidente, estou estranhando : existe alguma coisa a mais\u201d. E Geisel: \u201cPaulo, tire isso da cabe\u00e7a! Enquanto eu for Presidente desse pa\u00eds, nada vai acontecer\u201d. Geisel n\u00e3o aceitava que a autoridade dele pudesse ser questionada. N\u00e3o \u00e9 mais um fato de voc\u00ea averiguar: \u00e9 um fato hist\u00f3rico. Havia um plano de derrubar o general Ernesto Geisel da presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Tentaram me usar como governador do\u00a0Estado mais forte da federa\u00e7\u00e3o naquela ocasi\u00e3o pela minha liga\u00e7\u00e3o pessoal com ele \u2013 que era p\u00fablica e not\u00f3ria (\u2026.). Havia uma briga interna do Ex\u00e9rcito\u00a0 que n\u00f3s, civis, n\u00e3o avaliamos. N\u00e3o tenho a menor d\u00favida quanto a um embate dentro de duas fac\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito nacional que disputavam o Poder\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>GMN: Quando o senhor tratou com o presidente Geisel pela primeira vez sobre a morte de Vladimir Herzog, o senhor disse a ele que nada\u00a0constava contra o jornalista Vladimir Herzog nos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Egydio:<\/strong> \u201dDisse. E disse claramente, como acabo de\u00a0 repetir para voc\u00ea. Ele sabia disso ( sil\u00eancio). Se maquiou um suic\u00eddio ! O suic\u00eddio foi maquiado ! N\u00e3o houve suic\u00eddio! Herzog foi assassinado dentro das depend\u00eancias do II Ex\u00e9rcito na rua Tut\u00f3ia, em S\u00e3o Paulo\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>GMN: O senhor testemunhou uma cena important\u00edssima dos bastidores do regime militar: o dia em que o presidente Geisel chamou o ent\u00e3o\u00a0comandante do II Ex\u00e9rcito, general Ednardo D`\u00c1vila, logo depois da morte do jornalista Vladimir Herzog nas depend\u00eancias do quartel. O que foi exatamente que o general Geisel disse ao gen0eral Ednardo ?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Egydio:<\/strong> \u201dEu j\u00e1 tinha me recolhido com o presidente Geisel para a ala residencial do Pal\u00e1cio dos Bandeirantes. Est\u00e1vamos sentados na biblioteca. Ednardo subiu para a ala residencial. Quando apareceu na porta, fiz um gesto de me levantar .N\u00e3o ia ficar presente a uma reuni\u00e3o do Presidente da Rep\u00fablica com o comandante do II Ex\u00e9rcito, os dois generais. Geisel virou para mim e disse:\u00a0 \u201cN\u00e3o,n\u00e3o, Paulo. Quero que voc\u00ea fique a\u00ed e escute\u201d. E o general Ednardo D`\u00c1vila Melo, perfilado, em posi\u00e7\u00e3o de sentido, na frente de Geisel e na minha, ficou ouvindo Geisel se dirigir a ele assim:\u00a0 \u201cEdnardo, voc\u00ea me conhece muito bem. Voc\u00ea sabe do meu passado. Voc\u00ea sabe da minha hist\u00f3ria. N\u00e3o vou admitir que fatos como esses que ocorreram aqui no II Ex\u00e9rcito se repitam. Quero que voc\u00ea saiba que vou tomar medidas. Voc\u00ea vai tomar conhecimento pelo seu ministro do Ex\u00e9rcito e pelo Di\u00e1rio Oficial. Vou tornar isso um decreto: proibir que algu\u00e9m seja preso antes de uma comunica\u00e7\u00e3o ao meu gabinete \u2013 ao gabinete militar, ao SNI ou a mim, pessoalmente. S\u00f3 depois dessa comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 que posso admitir que um preso pol\u00edtico seja levado ao recinto de um quartel do Ex\u00e9rcito. O senhor est\u00e1 me ouvindo? Est\u00e1 entendendo? \u201c. E o general: \u201cSim, senhor\u00a0 Presidente; sim,senhor Presidente\u201d. Geisel: \u201cPode se retirar\u201d. Escutei tudo aquilo quieto e calado. Meses depois, houve o caso de Manoel Fiel Filho \u2013 que contrariou juridicamente, formalmente e hierarquicamente todas as determina\u00e7\u00f5es do Presidente da Rep\u00fablica, comandante-em-chefe das For\u00e7as Armadas do Brasil. Consequ\u00eancia: o general, fiel \u00e0s palavras que tinha proferido na minha frente, exonerou um general de quatro estrelas do comando do II Ex\u00e9rcito, fato in\u00e9dito na hist\u00f3ria do Ex\u00e9rcito brasileiro\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>GMN: Se o senhor for convocado a depor na Comiss\u00e3o da Verdade\u00a0 para relatar as cenas de bastidores que aconteceram nos epis\u00f3dios das mortes de Vladimir Herzog e de Manoel Fiela Filho, o senhor vai comparecer?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo Egydio:<\/strong> \u201cClaro. Se eu n\u00e3o comparecer, fa\u00e7a um favor: mande uma c\u00f3pia deste depoimento. Irei a qualquer hora, a qualquer instante. N\u00e3o temos de temer nada. \u00c9 hora de botar para fora tudo o que for para botar para fora. Vivemos numa democracia para ser verdadeira\u201d.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; G1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ex-governador de S\u00e3o Paulo d\u00e1 veredito: \u201cSuic\u00eddio foi maquiado. Herzog foi assassinado no II Ex\u00e9rcito\u201d. 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