{"id":978,"date":"2012-06-06T03:46:02","date_gmt":"2012-06-06T03:46:02","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/06\/a-verdade-acima-de-tudo-2\/"},"modified":"2012-06-06T03:46:02","modified_gmt":"2012-06-06T03:46:02","slug":"a-verdade-acima-de-tudo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/06\/a-verdade-acima-de-tudo-2\/","title":{"rendered":"A verdade, acima de tudo"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>\n<p class=\"p1\" \/>Chico Pinheiro anunciava no Bom Dia, Brasil, o programa matinal da TV Globo, a not\u00edcia sobre a instala\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade em Bras\u00edlia, ocorrida no dia anterior, no movimentado maio deste ano. Disse que seriam apurados os atos de viol\u00eancia pol\u00edtica durante o regime militar. De imediato fez a corre\u00e7\u00e3o: durante a ditadura. E seguiu em frente.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\">Quantas vezes a defini\u00e7\u00e3o foi usada em qualquer dos ve\u00edculos das Organiza\u00e7\u00f5es Roberto Marinho entre a edi\u00e7\u00e3o do AI-5, no pl\u00fambeo dia 13 de dezembro de 1968, e a posse do primeiro presidente civil, Jos\u00e9 Sarney, mais de 16 anos depois? Talvez nem uma s\u00f3. Nenhumazinha. Necas de pitibiriba.<\/p>\n<p class=\"p1\">A palavra ditadura estava vetada pelo governo. Mesmo que ele n\u00e3o reprimisse o seu uso, referir-se a ditadura soava como pecado, ato ilegal e in\u00edquo pass\u00edvel da mais dr\u00e1stica puni\u00e7\u00e3o. Mesmo sussurrando a express\u00e3o maldita, dizendo-a ao ouvido do interlocutor, sentia-se o perigo, temia-se pelas consequ\u00eancias. O regime era de terror. O Grande Irm\u00e3o era quase onisciente e onipresente.<\/p>\n<p class=\"p1\">A tradu\u00e7\u00e3o de Big Brother, express\u00e3o extra\u00edda da literatura antitirania de George Orwell, ainda n\u00e3o era sacanagem, exibicionismo, narcisismo e mediocridade. Convers\u00e3o, ali\u00e1s, que se deve \u00e0 emissora de televis\u00e3o do Grande Irm\u00e3o Roberto Marinho.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Ontem e hoje<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">Se antes era sin\u00f4nimo de delito, il\u00edcito, pecado e blasf\u00eamia chamar o governo de ditadura, hoje a defini\u00e7\u00e3o, pela repeti\u00e7\u00e3o ad nauseam, irrefletida e inconsequente, perdeu a sua carga expressiva, o seu significado heur\u00edstico. De elemento escatol\u00f3gico, passou a ser componente aleat\u00f3rio, mero complemento de linguagem. Al\u00e9m de soar falso em muitas das bocas que a pronunciam hoje.<\/p>\n<p class=\"p1\">A Globo foi parceira da ditadura at\u00e9 a und\u00e9cima hora. Gozou de todos os benef\u00edcios do regime. S\u00f3 se dissociou dele no derradeiro momento do seu naufr\u00e1gio. Mas com tal senso afinado de oportunidade que foi acolhida com sauda\u00e7\u00f5es e comemora\u00e7\u00f5es na nova nau, que passaria a singrar os mares do poder no Brasil. A Globo era um dos salvados do inc\u00eandio, no rescaldo de prote\u00e7\u00e3o que beneficiaria tamb\u00e9m Jos\u00e9 Sarney, Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es e outros personagens desses tempos de gatos pardos vistos como pretos.<\/p>\n<p class=\"p1\">Isso n\u00e3o quer dizer que o companheiro Roberto Marinho fosse um canalha completo. A tipologia cabe apenas no personagem de Nelson Rodrigues, o imagin\u00e1rio e arquet\u00edpico Palhares. A trajet\u00f3ria de um homem que assumiu ainda jovem o comando de um novo jornal, que o pai apenas fundara, morrendo logo em seguida, at\u00e9 montar um dos maiores imp\u00e9rios de comunica\u00e7\u00e3o do mundo, n\u00e3o \u00e9 para ser descartada. Nem para ficar nas m\u00e3os de um \u00e1ulico como Pedro Bial, bi\u00f3grafo med\u00edocre diante da riqueza do tema.<\/p>\n<p class=\"p1\">A hist\u00f3ria de Marinho \u00e9 fascinante, assim como a de muitos dos capit\u00e3es da \u201cimprensa sadia\u201d, conforme a express\u00e3o ir\u00f4nica que os seus cr\u00edticos usavam, at\u00e9 os anos 1960 (o fim dessa utiliza\u00e7\u00e3o chegou com a ascens\u00e3o do regime de exce\u00e7\u00e3o \u2013 e n\u00e3o foi exatamente por acaso).<\/p>\n<p class=\"p1\">Lia empolgado tudo que Gondin da Fonseca escrevia sobre os donos de jornais e sua fauna acompanhante. Gondin foi um dos maiores panflet\u00e1rios da hist\u00f3ria do jornalismo brasileiro, exclu\u00eddo da mem\u00f3ria coletiva dos nossos dias. Mas n\u00e3o fiquei nele nem incorporei a maioria dos seus conceitos. Li tudo que me caiu \u00e0s m\u00e3os sobre a nossa imprensa. N\u00e3o \u00e9 muito. Pelo contr\u00e1rio: \u00e9 quase nada.<\/p>\n<p class=\"p1\">H\u00e1 excelentes trabalhos, como o que Fernando Morais empreendeu sobre Assis Chateaubriand. Li e reli a biografia (Chat\u00f4,o rei do Brasil), apesar de volumosa. E mesmo tendo suas centenas de p\u00e1ginas, deixou quest\u00f5es importantes de lado e n\u00e3o respondeu a perguntas que emergem do trabalho. Deviam ter induzido novos livros. Mas o livro de Fernando parece ter saciado a curiosidade nacional.<\/p>\n<p class=\"p1\">Contar tudo, mesmo o imoral, \u00e9 uma necessidade que n\u00e3o impede a compreens\u00e3o dos personagens e a avalia\u00e7\u00e3o do papel que desempenharam. O Brasil constitui uma hist\u00f3ria da qual s\u00f3 agora os brasileiros se apercebem.<\/p>\n<p class=\"p1\">Felizmente se multiplicam os livros sobre temas do passado e de hoje. Inquieta, por\u00e9m, que essa prodigalidade de resultados se estabele\u00e7a sobre uma base mesquinha de dados. H\u00e1 mais trabalhos de interpreta\u00e7\u00e3o e reinterpreta\u00e7\u00e3o, feitos em cima de outros livros, do que de verdadeira revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Projeto de civiliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">N\u00e3o se h\u00e1 de esperar sempre novidades e muitas vezes elas deixaram de existir. Mesmo assim \u00e9 escassa a base documental de tantos livros que inundam a vasqueira rede de livrarias (em n\u00famero provavelmente inferior ao de editoras).<\/p>\n<p class=\"p1\">N\u00e3o \u00e9 que os escritores sejam pregui\u00e7osos ou negligentes (mas muitos o s\u00e3o): \u00e9 que os arquivos n\u00e3o se abrem; a pesquisa \u00e9 dificultada; o governo, principal fonte de informa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, senta sobre suas jazidas documentais.<\/p>\n<p class=\"p1\">A comiss\u00e3o da verdade referida por Chico Pinheiro na sua hesitante locu\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente necess\u00e1ria. Ela poder\u00e1 abrir arquivos e trazer informa\u00e7\u00f5es com as quais se haver\u00e1 de escrever uma hist\u00f3ria contempor\u00e2nea mais verdadeira e rica. Mais do que isso: ajudar\u00e1 pessoas vivas a saberem onde foram parar no al\u00e9m \u2013 e de que maneira foram parar \u2013 seus parentes e amigos desaparecidos.<\/p>\n<p class=\"p1\">Um pa\u00eds civilizado se civiliza por conhecer sua hist\u00f3ria, preparado para encarar os fatos, quais forem, mesmo \u2013 e, sobretudo \u2013 os desagrad\u00e1veis, justamente os essenciais para purgar erros e burilar li\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m se aprimora pelo gesto nobre e profundamente humano de atender os pedidos e cobran\u00e7as dos cidad\u00e3os atingidos pelos bra\u00e7os longos e pesados do poder estatal.<\/p>\n<p class=\"p1\">O empres\u00e1rio e pol\u00edtico Rubens Paiva \u00e9 o mais c\u00e9lebre e tr\u00e1gico desaparecido, fato sem explica\u00e7\u00e3o (e cova sem sepultura) h\u00e1 quatro longas d\u00e9cadas. Tudo indica que ele foi executado, da forma mais torpe, pelo erro e incompet\u00eancia dos seus algozes. Mesmo que eles j\u00e1 n\u00e3o possam ser punidos e a puni\u00e7\u00e3o passe a ser fato secund\u00e1rio, os parentes e amigos de Rubens Paiva tem todo direito de saber como foi o seu fim.<\/p>\n<p class=\"p1\">O escritor e jornalista Jason T\u00e9rcio tentou fornecer essa hist\u00f3ria completa em livro recente, Segredo de Estado. A falta de dados suficientes para a demonstra\u00e7\u00e3o o obrigaram a entremear a descri\u00e7\u00e3o dos acontecimentos reais com doses de imagina\u00e7\u00e3o por ser imposs\u00edvel escrever um verdadeiro livro de jornalismo ou de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"p1\">Esse livro precisa ser escrito. Muitos desses livros precisam ser escritos. Do contr\u00e1rio o Brasil n\u00e3o enterrar\u00e1 todos os seus mortos, as sombras permear\u00e3o a claridade, o projeto de civiliza\u00e7\u00e3o se frustrar\u00e1 e Chico Pinheiro titubear\u00e1 entre o regime militar e a ditadura.<\/p>\n<p class=\"p1\">Numa democracia, \u00e9 normal que se chame a ditadura de ditadura. Num pa\u00eds que pretende se consolidar sob democracia, ditaduras n\u00e3o podem vicejar. T\u00eam que ser eliminadas de vez do terreno saud\u00e1vel para que ele fique cada vez mais forte, tornando imposs\u00edvel qualquer tipo de ditadura.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">Fonte &#8211; Observat\u00f3rio da Imprensa<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chico Pinheiro anunciava no Bom Dia, Brasil, o programa matinal da TV Globo, a not\u00edcia sobre a instala\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade em Bras\u00edlia, ocorrida no dia anterior, no movimentado maio deste ano. 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