{"id":980,"date":"2012-06-06T03:52:15","date_gmt":"2012-06-06T03:52:15","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/06\/barulho-na-ditadura-silencio-na-democracia-2\/"},"modified":"2012-06-06T03:52:15","modified_gmt":"2012-06-06T03:52:15","slug":"barulho-na-ditadura-silencio-na-democracia-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/06\/barulho-na-ditadura-silencio-na-democracia-2\/","title":{"rendered":"Barulho na ditadura, sil\u00eancio na democracia"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quem n\u00e3o foi torturado, preso ou incomodado durante a ditadura militar (que se prolongou de 1964 a 1985) foi conivente com ela, se acomodando e deixando de lado o compromisso pol\u00edtico? Ou, conforme palavra-chave da \u00e9poca, se alienando?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Responder que sim \u00e9 t\u00e3o equivocado quanto presumir que os perseguidos, pelo fato de terem se oposto radicalmente ao regime de exce\u00e7\u00e3o, estavam certos. Havia tamb\u00e9m canalhas do lado da oposi\u00e7\u00e3o.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O eixo da resposta est\u00e1 na op\u00e7\u00e3o pela luta armada contra a tirania imposta, de forma mais intensa, de 1969 a 1977. Antes e depois as grada\u00e7\u00f5es foram no sentido do al\u00edvio da viol\u00eancia e da repress\u00e3o, na busca pela normalidade democr\u00e1tica. Frustrada no primeiro coletivo. Realizada, no segundo momento.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Muitos prosseguiram na defesa dos seus ideais sem aceitar a tese da revolu\u00e7\u00e3o pelas armas. Foram corajosos, se arriscaram muito e ajudaram o pa\u00eds a n\u00e3o mergulhar mais profundamente \u2013 nem mais demoradamente \u2013 nas trevas do Leviat\u00e3 estatal, com sua contrapartida no sectarismo de esquerda.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Gra\u00e7as a servidores p\u00fablicos e cidad\u00e3os em geral decentes e ativos, o pa\u00eds se manteve num n\u00edvel m\u00ednimo de dignidade e civilidade. Sem essas fontes, o jornalismo teria sido reduzido a um eco da voz do dono, um aliado compuls\u00f3rio do poder.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Altas horas<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Muitas das minhas fontes surgiram nesse per\u00edodo, t\u00e3o desfavor\u00e1vel \u00e0 coleta de informa\u00e7\u00f5es e \u00e0 transmiss\u00e3o de verdades. At\u00e9 conversar com essas pessoas era arriscado. O Grande Irm\u00e3o orwelliano (n\u00e3o \u00e9 o Big Brother da TV Globo) estava sempre com seus muitos olhos bem abertos. Seus bra\u00e7os tamb\u00e9m podiam alcan\u00e7ar os recalcitrantes como os tent\u00e1culos de um polvo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, contra todas as expectativas dos censores e controladores da opini\u00e3o p\u00fablica, a imprensa conseguia surpreender com reportagens fortes, substanciais, bem informadas. Gra\u00e7as a fontes situadas \u00e0s vezes em posi\u00e7\u00e3o de destaque dentro da estrutura do poder, tanto no governo como nas grandes empresas privadas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As fontes se arriscavam muito. Mas se arriscavam por confiarem nos seus interlocutores da imprensa, que se comprometiam em manter completo sigilo \u2013 se necess\u00e1rio e em qualquer circunst\u00e2ncia. E a serem corretos no uso das informa\u00e7\u00f5es fornecidas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em algumas situa\u00e7\u00f5es o contato com elas ocorria de uma forma t\u00e3o tensa quanto os encontros de Bob Woodward com \u201cDeep Throat\u201d, segundo na hierarquia, seu informante secreto no FBI (a pol\u00edcia federal americana), durante o esc\u00e2ndalo de Watergate, que obrigou o presidente Richard Nixon a renunciar para n\u00e3o sofrer o primeiro impeachment da hist\u00f3ria dos Estados Unidos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Hoje sabemos que as cenas do rep\u00f3rter do Washington Post com o agente Mark Felt, reproduzidas no filme Todos os Homens do Presidente, foram dramatizadas de forma exagerada. Mas o padr\u00e3o em momentos semelhantes no Brasil era esse.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Foi circulando \u00e0 noite por Bel\u00e9m no carro particular do meu interlocutor que obtinha as informa\u00e7\u00f5es do tenente-coronel Nivaldo de Oliveira Dias. Comandante do 2\u00aa Batalh\u00e3o de Infantaria de Selva, a principal unidade do Ex\u00e9rcito na capital paraense, ele foi o \u00fanico militar que se rebelou contra a vers\u00e3o oficial do atentado terrorista de direita ao Riocentro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Num boletim \u00e0 tropa sob seu comando, o oficial (de curr\u00edculo brilhante) disse n\u00e3o ter d\u00favida que o capit\u00e3o e o sargento conduziam bombas para explodir durante a realiza\u00e7\u00e3o do show de motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Rio de Janeiro. Foi preso e passou para a reserva, mas n\u00e3o se calou. Como sab\u00edamos que ele era monitorado, convers\u00e1vamos enquanto o carro rodava pela cidade, altas horas da noite. No dia seguinte um homem do DOI-Codi ia \u00e0 reda\u00e7\u00e3o fazer intimida\u00e7\u00e3o ao rep\u00f3rter.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00favida e esperan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Outro exemplo, na iniciativa privada, era um t\u00e9cnico canadense que chefiava a f\u00e1brica de celulose do milion\u00e1rio americano Daniel Ludwig na sua vasta propriedade no Jari, entre o Par\u00e1 e o Amap\u00e1. Marc\u00e1vamos encontro do outro lado do rio, no Beiradinho, uma cidade sobre palafitas. Ca\u00f3tica, mas livre.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">L\u00e1, tomando cervejas, o engenheiro se libertava do autoritarismo da f\u00e1brica e conversava sem limita\u00e7\u00f5es sobre o empreendimento, que era o modelo de investimento de capital estrangeiro propagandeado pelo governo militar como necess\u00e1rio para desenvolver a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por que conto essas hist\u00f3rias? Porque me surpreendo com as dificuldades para a circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es em plena democracia no Brasil.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www.valeqvale.wordpress.com.br\/\">Criei um blog<\/a> para que empregados da Vale pudessem participar de um debate franco e s\u00e9rio sobre a empresa. Para que tamb\u00e9m se expressassem moradores das \u00e1reas nas quais a poderosa companhia atua. Para que cri\u00e1ssemos um contracanto ao canto orquestrado pela Vale e seus parceiros, que tantos dados nos sonegam. Para que pud\u00e9ssemos reunir informa\u00e7\u00f5es suficientes para uma avalia\u00e7\u00e3o dos 15 anos de privatiza\u00e7\u00e3o da estatal do min\u00e9rio, no pr\u00f3ximo dia 15 de maio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei o que acha o leitor, mas temo que esse debate f\u00e9rtil e denso n\u00e3o v\u00e1 se estabelecer. Dizem os c\u00e9ticos (ou iniciados) que isso \u00e9 imposs\u00edvel via internet. Essa \u00e9 uma m\u00eddia da rapidez e da superficialidade, refrat\u00e1ria \u00e0 an\u00e1lise e \u00e0 reflex\u00e3o. Ser\u00e1?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fica minha d\u00favida. E minha esperan\u00e7a contra ela. Por isso continuo com o Jornal Pessoal no papel.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Observat\u00f3rio da Imprensa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem n\u00e3o foi torturado, preso ou incomodado durante a ditadura militar (que se prolongou de 1964 a 1985) foi conivente com ela, se acomodando e deixando de lado o compromisso pol\u00edtico? Ou, conforme palavra-chave da \u00e9poca, se alienando? 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