‘Inteligência era na base da porrada’

Sessões de espancamentos realizadas no quartel de Ribeirão Preto eram feitas sem preocupação com discrição

Após sessões de tortura durante regime militar, jornalista Vicente Alessi Filho desenvolveu toque (Foto: Milena Aurea / A Cidade)

 

 

Integrante do setor de inteligência da Faln (Forças Armadas de Libertação Nacional), Vicente Alessi Filho foi preso na manhã de 20 de outubro de 1969 em São Paulo. No prédio da Oban (Operação Bandeirantes) passou por sessões de espancamento e choque elétrico. Na madrugada, foram trazidos Áurea Moreti e Wanderley Caixe, vindos de Ribeirão Preto.

“Eram trapos humanos, um monte de carne disforme, só ficavam em pé se alguém segurasse”, afirmou ontem, em depoimento à Comissão da Verdade da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Ribeirão Preto.

Quando foram informados de que viajariam a Ribeirão, alguns dos presos se animaram por voltar para casa. “Mal sabíamos que a Oban era apenas a antesala do inferno perto do que passamos aqui”, diz Vicente.

Segundo ele, os militares não tinham, naquela época, um serviço competente de inteligência. “Eles só obtinham informações na base da porrada e tortura”.

Com a queda das lideranças da Faln, o quartel militar de Ribeirão se transformou em um centro de tortura.

“Aqui se juntaram as piores virtudes dos delegados acostumados a bater nos presos comuns à sanguinolência dos oficiais do exército vindos de Pirassununga”, lembrou Vicente.

As sessões de tortura no quartel chegavam a ser coletivas, envolvendo até cinco presos sendo interrogados ao mesmo tempo, e sem preocupação com discrição.

“Batiam com as portas e janelas abertas. Tenho certeza de que os vizinhos ouviam os gritos”, afirmou.
Entre os torturadores estão o delegado Miguel Lamano, que depois seria excomungado pelas agressões à madre Maurina.

A certeza de impunidade era tanta que, ao tomar depoimento de Vicente, Lamano cortou os seus cabelos com uma tesoura de alfaiate – a cena foi presenciada por um imóvel advogado curador do preso.

Vicente se lembra, também, do bombeiro Paulo Casillo. “Ele me deixou no pau de arara por três horas por puro deleite”, afirmou.

Em 20 de novembro de 1969, o grupo foi levado para o Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e depois para o presídio de Tiradentes, em São Paulo. Ao todo, Vicente ficou 21 meses e 13 dias preso.

Sonhos

Aos 65 anos, jornalista e editor-chefe da revista Autodata, Vicente diz ter ódio dos torturadores. Ele ficou com o toque de não conseguir abrir portas – pois foi preso assim em 1972 e 1973. “Mas, felizmente, nunca sonhei com essa m…[a tortura]”.

Flávio ria com as sessões de choque

As sessões de tortura com choque elétrico promovidas pelos membros da Oban em Ribeirão Preto rendiam risos a Flávio Poltronieri. “Ele era eletrotécnico, estava acostumado”, lembrou Vicente Alessi Filho ontem na OAB.

Os torturadores, então, mudaram a voltagem para 220 V. “Mas não foi suficiente, ele ria e cuspia na cara deles”, afirmou Vicente. Sem sucesso com a corrente elétrica, os militares então promoveram uma sessão de espancamento.

Depois, no presídio de Tiradentes, Flávio descobriu uma forma de, usando o chuveirinho de água quente do banheiro encostado no metal, disparar o alarme do presídio.

“Tinha toda a história de que o Lamarca ia invadir o Tiradentes para resgatar os presos. Então, Flávio sempre disparava o alarme, os militares entravam em polvorosa e ele dizia: ‘assim eu também me divirto’”.

 

– Depoimento prestado à Comissão da Verdade – OAB 12ª Subsecção de Ribeirão Preto-SP

Dr. Feres Sabino – Presidente

Dr. Eduardo Silveira Martins – membro

Dr. Anderson Romão Polverel – membro

Rubens Zaidan – jornalista

Saulo Gomes – jornalista – Presidente da ABAP

 

 

Fonte – Jornal da Cidade

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