Caminhos das esquerdas na Ditadura Militar brasileira

O papel exercido historicamente pela força política das esquerdas no Brasil tem sua marca de importância no que diz respeito minimamente ao questionamento da ordem capitalista. A bandeira da “transformação política e social” está na pauta da matriz teórica do Marxismo, sendo levada adiante por muitas organizações políticas ligadas a este pensamento. Juntamente a este fator, percebe-se, como demonstraremos a seguir, que erros e acertos caminham juntos no processo de aprendizagem da militância progressista e a variedade teórica gerada pela filosofia marxista fez com que as esquerdas no Brasil divergissem em seus projetos revolucionários para o país.

 

Temos como objetivo neste trabalho apresentar como foram pensadas as concepções de revolução para o Brasil pelas esquerdas, discutir a fragilidade dessas forças políticas no que diz respeito às análises de conjuntura política, econômica e social, bem como suas inconsistências em relação a uma ligação direta e efetiva com a classe trabalhadora.

O Regime Militar brasileiro trabalhou com diversas formas de silenciamento. Impondo o silêncio à oposição, a militância de esquerda se viu na necessidade de trabalhar com sua forma própria de silêncio: a clandestinidade. Desta forma, os jovens que ingressavam nesta batalha viram nas organizações de esquerda um instrumento de derrubada do regime político então vigente, mesmo passando pelas dificuldades em se conviver com o “silêncio de si mesmo” devido à clandestinidade (ARAUJO, 2002).

Para conseguir atingir o objetivo de derrubada da ditadura boa parte das organizações de esquerda atuaram como grupos de guerrilha, com o intuito de alcançar a transformação política do país através da luta armada. Tais organizações tinham suas propostas para uma revolução no Brasil, entre os principais podemos citar: Ação Popular (AP), Partido Comunista do Brasil (PC do B), Política Operária (Polop), Aliança Libertadora Nacional (ALN), Movimento Nacional Revolucionário (MNR), Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), Partido Operário Comunista (POC), Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), Movimento de Libertação Popular (Molipo), entre outros.

Deste considerável número de organizações já se percebe uma falha inicial em um projeto de derrubada, através das armas, de um governo militar: a extrema fragmentação da esquerda. Esta falta de unidade da esquerda brasileira abriu brechas para que os militares esmagassem boa parte da oposição armada.

Em relação às propostas de revolução destas organizações para o Brasil, Marcelo Ridenti destaca que em meados dos anos 60 a principal versão era a que foi definida no VI Congresso da III Internacional Comunista, de 1928, que era inclusive utilizada pelo PCB.

Previa-se a revolução em duas etapas, a primeira das quais deveria ser “burguesa”, ou de “libertação nacional”. Congregando uma somatória de classes sociais progressistas, unidas para desenvolver as forças produtivas, a revolução burguesa implicaria superar os entraves impostos ao desenvolvimento nacional pelas relações feudais no campo e pela presença do imperialismo na economia. Muitas organizações que pegaram em armas mantiveram com poucas alterações esse esquema analítico, como foi o caso da ALN e, também, dos grupos nacionalistas, como MNR e RAN, que, naturalmente, eram favoráveis a uma luta de libertação nacional (RIDENTI, 1993: 30, 31)

Sobre a questão das “relações feudais no campo”, Caio Prado Jr. aponta algumas críticas em relação a ausência de uma análise mais sólida por parte das esquerdas sobre os trabalhadores do campo.

[…] porque no campo, onde o assunto se apresentava muito mais complexo, a coisa era pior, pois as prédicas para uma massa trabalhadora rural fantasiada para a circunstância do campesinato do tipo europeu dos séculos XVIII e XIX, e as imprecações contra o “feudalismo” não encontravam ai, nem podia encontrar, nenhuma ressonância (JUNIOR, 2005: 46)

A ALN, de Marighella, incluía em seu projeto a inclusão de setores pequeno-burgueses e pequenos empresários nacionais no processo revolucionário, não tendo, então, um caráter socialista de início e sim um teor de libertação nacional, antioligárquico e anticapitalista. A proposta de um governo popular-revolucionário se aproximava do PCBR, apesar de que este último já propunha um caminho socialista para a Revolução Popular. (RIDENTI, 1993)

Outro grupo que se assemelhava em alguns pontos com a ALN e o PCBR, sobretudo no que diz respeito a idéia de se implantar um “Governo Popular Revolucionário”, foi a Ala Vermelha do PC do B, e inclusive se assemelhava da ALN em sua proposta de uma coligação ampla, envolvendo a burguesia nacional, o campesinato, a pequena burguesia, o semiproletariado e o proletariado como vanguarda. Já a VPR, VAR- Palmares, POC, PRT e MR-8 propunham um caráter socialista de revolução (RIDENTI, 1993).

As esquerdas teorizavam sobre o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Estes sistema teria então um entreve sobre ele, devido às alianças da burguesia com latifundiários e à vinculação da economia brasileira com as multinacionais. Desta forma, “o ‘inimigo imediato’ da revolução seria a ‘burguesia local’ e o ‘inimigo principal’ o ‘imperialismo’ (a burguesia brasileira seria mera representante local do imperialismo)” (RIDENTI, 1993: 36).

Uma semelhança entre as ideias de Marcelo Ridenti e Caio Prado Jr. são suas críticas em relação à fragilidade das análises políticas das esquerdas. Ridenti aponta que as esquerdas não conseguiam esboçar uma análise consistente das classes despossuídas. Tal questão nos leva a pensar sobre uma característica negativa das esquerdas neste período: sua falta de aproximação direta com a classe trabalhadora.

Uma questão que fica clara sobre este ponto é a seguinte conclusão: os jovens militantes, oriundos em sua maioria da classe média, tinham em mãos a teoria marxista, a coragem e a persistência da militância clandestina para defender a classe trabalhadora, mas não tinham o fator principal, uma relação mais estreita com esta classe. Desta forma, as camadas populares da sociedade não se viam representadas por estes grupos políticos.

Além desta questão, havia também os caminhos vacilantes pelos quais as esquerdas passaram até mesmo antes do Regime Militar, que incluem além deste distanciamento com as camadas populares, algumas coligações contraditórias com setores conservadores da sociedade.

[…] as bases, as massas populares, assistiam passivamente, ou pouco mais que isso, aos acontecimentos. E na melhor das hipóteses faziam, nos momentos de maior tensão, de torcida, como nos jogos de futebol. Nessas condições, encerradas em seus “slogans”, que nem por sua infinita e monótona repetição se abriam e projetavam em diretrizes eficazes e normas fecundas de ação – pois para isso não serviam os seus inaplicáveis esquemas teóricos – e privadas assim de perspectivas concretas, as esquerdas não lograram nunca atinar, afora uma agitação no mais das vezes completamente estéril, com outra saída para seu isolamento que a triste contingência de alianças com quaisquer dispositivos partidários que aceitassem seu apoio e concurso em troca de migalha de pequenos favores políticos muito mais de natureza pessoal que outra coisa qualquer. E assim se procedia mesmo à custa de concessões e abdicações de ordem ideológica (JUNIOR, 2005: 47, 48).

A principal crítica que Caio Prado Jr apresenta sobre as esquerdas é, em suma, que estes grupos políticos estiveram muito focados em estabelecer esquemas teóricos para a revolução brasileira e careciam de uma análise mais profunda da conjuntura política, econômica e social do país. Pois, para o autor, somente fazendo uma análise e interpretação concreta da realidade brasileira, percebendo as contradições presentes, é que se conseguiria tirar daí as possíveis soluções para a situação política pela qual o país vivia.

Caio Prado Jr. utiliza o exemplo da Revolução Cubana, que passou pelas etapas antiditatorial, revolução agrária e anti-imperialista até chegar em revolução socialista (1961), para comentar como deve ser a teoria revolucionária brasileira. Demonstrando, desta forma, que o caráter da revolução deve estar calcado nas bases reais da sociedade, e não em esquemas teóricos pré-determinados.

Tal questão demonstra mais um equívoco das esquerdas, o de importar modelos revolucionários de realidades totalmente distintas da brasileira. Somente o fato de adotarem o modelo de revolução proposto no VI Congresso da III Internacional Comunista, demonstra esta fragilidade de análise de conjuntura dos militantes.

Considerações finais

Percebemos então que as esquerdas brasileiras se mostraram carentes de uma unidade coesa e com alguns equívocos em suas propostas para derrubada do Regime Militar. A ausência de uma análise de conjuntura, o distanciamento com as classes trabalhadoras, são alguns exemplos desta fraqueza (apesar de serem fortes enquanto militantes em um regime autoritário).

Várias foram as propostas do processo revolucionário, que incluíam deste a inserção de grupos conservadores, como empresários nacionais, pequena burguesia, etc. Mas dentre todas as questões colocadas aqui, talvez a que mais tenha prejudicado os guerrilheiros foi a fragmentação das esquerdas em vários grupos armados e com reduzido número de membros e sua não inserção nas camadas populares da sociedade brasileira.

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