1932: O ano em que os paulistas foram combater a ditadura Vargas

O feriado da próxima terça-feira marca os 81 anos da maior luta armada da história dos paulistas

Voluntários em Ribeirão Preto, no Palácio Rio Branco (Foto: Arquivo pessoal)

 

A guerra dos paulistas estoura, para valer, em 9 de julho de 1932. Em 23 de maio do mesmo ano, haviam morrido

os estudantes Martins, Miragaia, Drauzio, Camargo e Alvarenga (MMDCA), em repressão durante um protesto nas ruas.

 

A revolução dura até 2 de outubro, quando os paulistas se rendem às forças federalistas.

Ribeirão Preto também se mobiliza pela revolução. Ao final, é ocupada por tropas goianas e mineiras. O Jornal A Cidade acompanha todo o movimento. As notícias chegam aos poucos.

Na edição do dia 10 de julho, A Cidade traz o editorial “Tenhamos cuidado!”, denunciando “a infiltração perigosa de elementos nocivos na política nacional”. O texto pede: “Fundam-se os partidos sãos, que correspondam a nossa finalidade de paiz civilisado, combatendo sempre os elementos extremistas que querem aguilhoar o Brasil”.

Noticiário

No dia 12 de julho, o jornal publica os primeiros telegramas:
“São Paulo, 11 de julho – Partiram desta capital, com destino a Cruzeiro, 5 mil homens da Força Pública do Estado, que alli vão guarnecer as fronteiras do Estado. Um avião paulista voou hoje sobre a cidade fluminense de Rezende e barra do Pirahy, fazendo reconhecimento. Dois aviões de bombardeiro chegaram a esta capital, tendo voado sobre a cidade, aterrisando em campo de Marte, adherindo ao movimento constitucionalista. Notícias do Rio dizem que o sr. Getulio Vargas dirigiu um manifesto à Nação, em que classifica o povo de São Paulo de rebelde e incita os brasileiros a pegarem em armas.

Em editorial, A Cidade põe a culpa do movimento no presidente da República: “Mas, em tudo isso, há um culpado, e esse culpado é o sr. Getulio Vargas, que não attendeu em tempo os reclamos do povo, que queria a constitucionalisação do país breve, que queria ser livre como sempre foi, não mais se amoldando ao regimen de oppressão e de despotismo.”

Porta-voz

A Cidade torna-se porta-voz do movimento constitucionalista em Ribeirão Preto. Já no da 13 de julho publica com destaque na primeira página um editorial intitulado “Separatismo? Não!”
Não queremos o Brasil seccionado, não queremos o Brasil de republiquetas inglórias, presa certa e fácil de potencias audazes. (…) Para a luta, paulistas! De coração forte e fusil rápido pela redempção do Brasil!”

Editorial forte

No dia 14 de julho, sai outro editorial, sob o título “Ribeirão Preto, escuta!”: “Nunca, nos momentos críticos para o estado ou para o Brasil, o povo da grande metrópole cafeeira, deste centro magnífico de energia fecunda e trabalho sadio, recusou o seu concurso, largo e firme pela victoria das boas causas. (,…) A nossa mocidade esta ahi, galharda e decidida, em busca das secções de alimentos.

As exmas. Senhoras e senhoritas agem para a constituição da Cruz Vermelha, organisação tão necessária no momento que passa. O professorado local, reunido, num gesto de desprendimento e belleza, hypothecou apoio irrestricto a commissão Pró-Constituinte. As classes conservadoras, commercio, lavoura e industria, vão pronunciar-se igualmente de maneira efficaz. Os nossos patrícios mineiros residentes nesta cidade, numa attitude que os enche de sympathia e applausos, telegrapharam as altas autoridades politicas do seu estado, solicitando, em nome das tradições montanhezas, a adhesão ampla de Minas a conducta nobre de S. Paulo (…)

Mas não é só. Há, ainda, um facto altamente expressivo: a resolução dos advogados locaes alistando-se na formação do batalhão das classes liberaes de Ribeirão Preto.
Povo que assim procede é povo que quer vencer, e vencerá.”

União

No dia 19 de julho, a primeira manchete falando claramente em guerra: “A Lucta pela redempção do Brasil – São Paulo, unido, marcha para a guerra. E Ribeirão Preto arregimenta-se para a peleja”.
O editorial de 20 de julho pede aos trabalhadores não engajados que mantenham-se produtivos: “É preciso que cada paulista, compenetrado de seus deveres, tome a sua posição, tanto nas armas como em suas actividades, para que a nossa producção não tenha solução de continuidade, para que sejam abastecidas regularmente as tropas em operações e para que a segurança dos nossos lares e da nossa propriedade não periclite. (…)”

Ribeirão Preto se mobilizou para defender a Constituição

Num dos vários batalhões que se formam e seguem para as frentes de batalha ou para a vigilância das fronteiras A Cidade inclui um “enviado especial”, seu diretor João Palma Guião, ex-prefeito de Ribeirão Preto. Ele integra a Companhia Marcondes Salgado, formada por voluntários. Como o pelotão não entra em luta, ele acaba mandando relatos cheios de humor.

“Pedregulho, 30 – O rancho tem melhorado sensivelmente. A alimentação é boa e bem feita. De vez em quando apparecem garrafões de vinho. E as offertas de doces, bolachas, pastéis se succedem. Alguns estão até engordando.. O Virgilio emagreceu um pouco, mas não por falta de alimento. É falta de outra cousa…”
Mas nem tudo é graça. Muitos perdem a vida.

Morre Nélio

Em 16 de setembro, A Cidade mancheta: “Nélio Guimarães, o primeiro acadêmico de Direito que tomba o campo de lucta”. “A cidade esteve representada pelo sr. Oswaldo Rossi, que acompanhou o corpo do bravo Nélio Guimarães de Ribeirão Preto a Sales Oliveira, onde assistiu ao sepultamento”.

Morre Ayrton Roxo

Jovem de Ribeirão Preto, Ayrton Roxo morre aos 23 lutando na Cavalaria Rio Pardo (Foto: Arquivo pessoal)

Em 23 de setembro, outra baixa: morre o jovem comerciante de café Ayrton Roxo, chamado de Tãozinho por seus companheiros. “Causou profundo pezar nesta cidade a noticia da morte do bravo soldado da cavallaria Rio Pardo, Ayrton Roxo. Filho de Ribeirão Preto, Tãozinho, como todos o chamavam, foi um dos mais bravos soldados de seu batalhão. Destemido e patriota, por occasião dos combates era sempre um dos mais avançados. Foi também um dos primeiros a alistar-se no batalhão em que morreu”.
O corpo de Ayrton Roxo foi sepultado pelos proprios inimigos.

Ribeirão ocupada

25 de setembro de 1932. É nessa data que circula a edição n° 10.840 de A Cidade, a última antes da ocupação a cidade pelas forças federais.

A edição seguinte só circulará 20 dias mais tarde. Os paulistas haviam se rendido no começo de outubro. No dia 18 de outubro, Ribeirão Preto estava ocupada por forças inimigas, primeiro goianas, depois mineiras. A Cidade publica o editorial “Novos Horizontes”, sustentando que a luta não fora em vão: “Se o resultado a principio pareceu completamente desfavorável, póde-se hoje asseverar que a nossa gente – a mocidade em primeiro plano – sahiu victoriosa da sangrenta pugna. O fim desejado era a Constituição. Ella está em caminho…”

A ocupação da cidade é traumática. Há depredações, confrontos, constrangimentos, mortes, revolta popular, hostilidades das tropas invasoras, ataque da cavalaria. A paz só voltaria a 1° de novembro.

 

“A Cavallaria se foi… desceu a Duque de Caxias rumo à estação da Mogyana, para voltar de onde não deveria ter vindo…”

O engajamento de Ribeirão Preto impressiona

Um balanço da participação de Ribeirão Preto durante os 87 dias da revolução pela Constituição mostra que a cidade se mobilizou para defender os ideais do movimento.

Um registro das trincheiras no campo de batalha, com paulistas defendendo as fronteiras do Estado na divisa com Minas (Foto: Arquivo pessoal)

Não foi só o alistamento dos profissionais liberais, muitos enviados para as frentes de combate.

Houve também a participação das mulheres, através de colaborações para os feridos, organização de mantimentos para os batalhões, arrecadação de donativos para fazer frente às despesas. Dois ribeirão-pretanos morreram em combate: Ayrton Roxo e Nélio Guimarães. Muitos outros participaram da Cavalaria do Rio Pardo, idealizada pelo fazendeiro de Campinas Cid de Castro Prado.

 

Fonte: A CIDADE

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