O livro “Fernando Pessoa – Sobre o Fascismo, a Ditadura Militar e Salazar”, organizado pelo historiador José Barreto, com textos inéditos do poeta, foi apresentado na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa.
A obra, como afirma o investigador, na introdução, reúne “todos os escritos de Fernando Pessoa [sobre fascismo, a ditadura e Salazar] que foi possível recensear, entre os ainda numerosos inéditos do espólio do escritor e a obra publicada em vida ou postumamente”, salvaguardando que não pode garantir a existência de outros textos, que se encontrem no espólio da Biblioteca Nacional, “ou fora dele”.Os escritos pessoanos são apresentados de forma cronológica, e agrupam-se em três temáticas essenciais: o fascismo e a figura de Benito Mussolini, a ditadura militar portuguesa (1926-1933), e António de Oliveira Salazar, enquanto ministro das Finanças, de 1928 a 1932, e posteriormente, como “líder do Governo e do Estado Novo”.
Alerta o investigador para o facto de que, no tempo em que Pessoa escreveu, “o termo fascismo ainda não tinha sofrido a dilatação semântica que posteriormente se verificou”.
No livro estão ainda incluídas umas notas “pouco numerosas e mais lacónicas” sobre o nacional-socialismo e Adolf Hitler, assim como sobre a ditadura espanhola de Primo de Rivera (1923-1930).
Apesar de conhecidos alguns textos que Fernando Pessoa (1888-1935) publicou ainda em vida, autógrafos ou sob pseudónimo, “alguns textos [reunidos nesta obra] dificilmente teriam encontrado em Portugal, no período em que foram escritos, quem se prontificasse ou arriscasse a publicá-los”, daí terem permanecido inéditos, afirma Barreto.
“Boa parte deles – como quase tudo o que Pessoa escreveu sobre Salazar e o Estado Novo – jamais poderia ter passado a malha censória”, escreve Barreto, que admite que muitos textos que o poeta publicou foram sujeitos ao crivo da censura prévia, estabelecida em 1926, designadamente o artigo “Profecia italiana”, publicado em 1935, cerca de um mês antes de morrer.
O investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, refere, aliás, que tal motivou “as conhecidas queixas de Pessoa” sobre o regime de censura.
A obra é publicada pela editora Tinta-da-China, no âmbito da coleção “Pessoa”, dirigida por Jerónimo Pizarro, que no ano passado publicou, pela primeira vez, num só volume, a “Obra Completa de Álvaro de Campos”, um dos heterónimos do autor de “Mensagem”.
Fonte – RTP