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Livro ‘Os Fuzis e as Flechas’ aborda perseguição a tribos indígenas durante ditadura militar

As mortes de índios provocadas no período entre o golpe militar de 1964 e o fim da ditadura, em 1985, continuavam obscuras até a chegada às livrarias do livro “Os Fuzis e as Flechas”, do jornalista Rubens Valente, da “Folha de S.Paulo”. A obra recém-lançada esmiúça negligências, conflitos e ataques a direitos indígenas perpetrados pelo Governo Federal.

“Era um Estado autoritário que tinha um desconforto grande com as notícias negativas e chegou a mobilizar as embaixadas [para evitar estragos]. Acho que os fatos caíram no esquecimento porque houve sucesso na política de acobertamento até agora”, afirma o escritor.

A pesquisa reúne arquivos do regime militar até então sigilosos e entrevistas com sertanistas, pesquisadores e lideranças indígenas. A reboque das revelações sobre os desmandos com relação a etnias, o livro mostra casos de corrupção, abuso de autoridade e projetos desastrosos de desenvolvimento. “A imprensa na época tinha problemas para tratar desses assuntos. A partir de 1968, havia censura. Além disso, existia dificuldade para chegar a lugares tão distantes”, lembra Rubens.

“Hoje uma elite política, econômica e jurídica consegue organizar uma luta contra as demarcações de terras.”  – Rubens Valente, escritor

A investigação aborda as mobilizações de núcleos da Igreja Católica pelo respeito ao território indígena. Enfatiza também a aparição de líderes indígenas, que culminou na chegada do deputado federal Mário Juruna ao Congresso, em 1982. Até hoje, esse é o único índio da história do Legislativo federal.

Contato com índios transmitiu doenças e provocou epidemias que dizimaram etniasContato com índios transmitiu doenças e provocou epidemias que dizimaram etnias / Reprodução

Obras espalharam doenças

O regime militar foi pródigo em se lançar em obras faraônicas. Algumas delas implicaram muitos impactos a comunidades indígenas. A rodovia Transamazônica, por exemplo, exigiu a movimentação de grandes contingentes de operários para as regiões por onde a via passaria.

Com a chegada desse grande número de trabalhadores aos canteiros de obra, houve a proliferação de doenças. Os índios não tinham imunidade para combater nem mesmo a gripe, que gerou epidemias responsáveis por dizimar tribos espalhadas pelo país.

Os registros levantados por Rubens Valente apontam que o governo não elaborou um projeto abrangente e capaz de levar em conta a complexidade da ocupação.

Embora a Funai (Fundação Nacional do Índio) mantivesse vários postos espalhados pelo território brasileiro, os sertanistas não conseguiram conter as querelas entre os colonos das novas frentes de ocupação, incentivados pela ditadura, e os povos originários.

O livro rebate as alegações dos militares, que garantiam desconhecer a real profundidade da questão da saúde indígena, principalmente no Centro-Oeste e no Norte do Brasil.

50 etnias seguem isoladas no Brasil. O Governo Federal tem adotado uma política de contato mais cuidadosa para evitar mais estragos.

100 índios, aproximadamente, passaram pelo reformatório Krenak que, na prática, foi um campo de concentração.

Serviço:

“Os Fuzis e as Flechas”. Rubens Valente. Companhia das Letras. 520 págs. R$ 70.

Regime militar tentou integrar o país com obras desastrosas e carasRegime militar tentou integrar o país com obras desastrosas e caras / Reprodução

Supremo não tem decidido por avanços

Ainda existem 50 etnias que vivem isoladas no Brasil. Atualmente, indígenas têm encontrado dificuldades para ter reconhecidas suas terras até pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Recentes decisões têm sido negativas para os povos originários. Nos outros poderes, o momento não é diferente.

Tramita em Brasília a PEC 215, que transfere a tarefa de demarcar para o Legislativo e representa, na prática, mais uma dificuldade para o reconhecimento dos direitos dos índios.

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