Stefanie Dodt: há ainda muito a investigar no Brasil, para que a sociedade possa saber o que realmente aconteceu

Autora de documentário sobre a Volks quis entender relação do Brasil com o passado

Jornalista alemã se interessou pelo tema após conhecer relatório final da Comissão Nacional da Verdade

 

A jornalista alemã Stefanie Dodt estava no Brasil pesquisando, como diz, sobre as consequências sociais da Olimpíada e da Copa do Mundo no Brasil, além da corrupção no esporte, na época da divulgação do relatório final da Comissão Nacional da Verdade. em dezembro de 2014. “Eu fiquei muito interessada no tema e me perguntei: como um país em que existiu uma lei de anistia está lidando com o passado da ditadura”, conta Stefanie, que juntamente com Thomas Aders acaba de lançar um documentário, disponível on-line, sobre a participação da subsidiária brasileira da Volkswagen na ditadura (1964-1985).

“Li sobre o tema e na página 67 do relatório da Comissão da Verdade eram mencionados documentos sobre o envolvimento da Volkswagen, que se trata de uma das empresas mais importantes da Alemanha. Foi o ponto de partida para mim”, lembra a jornalista. Pouco depois, ela conversou com Lúcio Bellentani, ex-trabalhador da Volkswagen, que narrou sua prisão dentro da fábrica da Volks em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, há 35 anos, em julho de 1972. “Fiquei tão impressionada com a história dele que desde aquele momento tive vontade de pesquisar sobre isso, entender e revelar o que realmente aconteceu, para que isso virasse público.”

Bellentani é o personagem central do filme, que ouve representantes do Ministério Público Federal, pesquisadores, historiadores e representantes da própria Volks, no Brasil e na Alemanha, além de outros ex-funcionários. O documentário tem 44 minutos.

Stefanie já tinha conhecimento do assunto: fez um bacharelado e um mestrado em Ciências Políticas e História tanto na Argentina como na Alemanha, com foco na política e na história latino-americanas. “Eu também conheci casos de colaboração de empresas com regimes autoritários. Mas no momento de iniciar a pesquisa, em dezembro de 2014, quase não tinha informações sobre o caso da Volkswagen do Brasil.”

O trabalho passou a ocupar integralmente o tempo de Stefanie há um ano, com sete meses de pesquisa e cinco para gravar e editar, além de uma série que foi ao ar na emissora de rádio NdrInfo e textos para o jornal  Süddeutsche Zeitung, de Munique, um dos principais da Alemanha. O documentário foi lançado no último dia 24 na ARD, maior canal público do país.

“A publicação foi realizada por uma cooperação de pesquisa investigativa entre a ARD e o Süddeutsche Zeitung“, lembra Stefanie. Os veículos mantêm cooperação permanente – a jornalista trabalha na área investigativa do NDR, parte da ADR. “Também fizemos reportagens curtas, resumindo os resultados da pesquisa, para muitos canais de televisão diferentes e canais de rádio, por exemplo no Tagesschau, o telejornal mais importante da Alemanha.” Segundo ela, quer em breve irá se mudar para Nova York, algumas emissoras brasileiras já sinalizaram interesse.

Para sua pesquisa, a  Volks alemã deu acesso a atas e documentos internos do grupo. No documentário, os autores contam que quiseram entrevistar o ex-historiador Manfred Grieger, mas havia um termo de confidencialidade. “A empresa permitiu que eu pudesse ficar dias e dias pesquisando todas as atas que quisesse na Volkswagen”, conta Stefanie. “Também a Volkswagen do Brasil, depois de alguns meses de negociações, me permitiu que eu gravasse dentro da fábrica e usasse fotos da empresa da época apesar de eles, claramente, preferirem que outros temas fossem abordados.”

Em todos os casos, foi bem recebida pelos funcionários, destacando o Arquivo Público de São Paulo. “O sistema de guardar as informações é diferente que na Alemanha, mas não e pior. O único problema era que nem todos os arquivos no Brasil foram abertos ainda, isso dificulta alguns elementos da pesquisa.”

Temas delicados

O desafio, segundo a jornalista, com 11 anos de profissão, era montar o quebra-cabeça. “Havia informações dos arquivos públicos e também não-públicos nos dois países. Eu fiz pesquisa no Brasil (Arquivo do Estado e arquivo do SNI, por exemplo), na Alemanha (Arquivo da Volkswagen, do Ministério de relações Exteriores, do conselho administrativo da empresa, arquivos da imprensa) e também sobre o caso do nazista Stangl na Áustria e na Inglaterra”, cita. Franz Stangl chegou a trabalhar na Volks.

“Avaliar as informações para chegar a um retrato completo foi um desafio. Também foi difícil encontrar as pessoas mencionadas nas atas, localizar e entrevistar testemunhas e os responsáveis da época”, lembra Stefanie. “As conversas com eles também às vezes não eram simples, já que frequentemente se tratavam de temas delicados.”

Ela falou com muitos ex-funcionários da Volks, nos dois países, políticos, jornalistas e pesquisadores, além de historiadores. “Foram sete meses revisando atas e de muitas conversas antes de realizar a primeira gravação”, lembra. “E as nossas publicações sobre o tema não acabaram ainda”, acrescenta Stefanie.

Sobre sua motivação para a pesquisa – como o país lida com seu passado –, a jornalista diz não ter chegado a uma conclusão. “Só tenho as minhas percepções. Eu acho que ainda tem muito para fazer, para pesquisar, para investigar no Brasil sobre o passado do pais, para que a sociedade possa saber o que realmente aconteceu naquela época. Acho muito importante documentar isso e rejeitar claramente crimes políticos, para que não voltem a acontecer.”

Fonte – Rede Brasil Atual

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