Comissão de SP entra na Justiça contra tese sobre morte acidental de JK

Contestado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) – que concluiu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek não foi assassinado pela ditadura militar – o vereador Gilberto Natalini (PV-SP) anunciou nesta terça-feira (03) que vai ingressar com ação na Justiça para impedir que a CVN divulgue a decisão em caráter definitivo.

Presidente da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog (CMVVH), Natalini argumenta que a CNV está usando documentos e laudos da “polícia da ditadura” para tirar conclusões precipitadas sobre a morte. 

Segundo o parlamentar, a Comissão Nacional não está levando em consideração os depoimentos colhidos pelo grupo de São Paulo, que levou o colegiado Vladimir Herzog a declarar em dezembro passado que JK e o motorista foram alvo de complô do Regime Militar, que teria assassinado os dois.

“A Comissão Nacional da Verdade defende a tese de que o acidente foi causado pelo ônibus da Cometa, que é a mesma versão defendida nos inquéritos do tempo da ditadura, feito pela polícia do Rio de Janeiro. Eles ouviram apenas uma testemunha por alguns minutos para chegar a essa conclusão”, declara Natalini.

“Em vez da perícia da polícia da ditadura, eu fico com o testemunho de um homem negro e pobre, que foi ouvido durante horas por nós e sequer foi levado em consideração pela Comissão Nacional”, afirma o vereador, referindo-se ao motorista de ônibus Josias Nunes de Oliveira, que dirigia o ônibus que colidiu contra o carro de JK na noite do acidente, em agosto de 1976. 

Na época, Josias Nunes de Oliveira foi acusado no inquérito da polícia rodoviária de ter causado o acidente que provocou as mortes de JK e do motorista dele, Geraldo Ribeiro. 

No depoimento dado à Comissão Municipal da Verdade ano passado, contudo, Oliveira disse ter sido procurado por homens não identificados na época para assumir a culpa pela morte do ex-presidente, que era tido como inimigo do Regime Militar brasileiro.

“Disseram que se eu pegasse o dinheiro e dissesse que sou culpado, o dinheiro era todo meu. Eles mostraram o dinheiro dentro da mala, eram notas antigas que o Juscelino mandou fazer de 500 cruzeiros. Não aceitei. Saíram do portão da minha casa e não voltaram mais”, declarou à época o motorista de ônibus.

Ao entrar com mandado de segurança contra a CNV, Natalini diz que não quer abrir guerra contra a entidade nacional, nem colher dividendos eleitorais, já que o vereador também é pré-candidato ao governo de São Paulo pelo PV:

“Baseados em depoimentos, temos certeza da verdade factual do nosso relatório. Há nele vários indícios contundentes que mostram fraude de laudos por parte da polícia da época, além de depoimentos fortíssimos de testemunhas da época. Tentamos marcar uma reunião com a Comissão Nacional, que disse que só nos receberiam se houvesse provas periciais diferentes das deles. Como não temos, a Procuradoria da Câmara nos orientou a pedir na Justiça o adiamento do relatório final deles, até que as testemunhas ouvidas por nós também sejam consideradas na análise do documento final”, explica Gilberto Natalini.

 

Histórico

As conclusões da Comissão Nacional da Verdade sobre a morte de Juscelino Kubistchek foram divulgadas em 22 de Abril deste ano.

No documento preliminar, a CNV sustenta que não há qualquer indício pericial de que JK e o motorista foram assassinados pela ditadura militar, como alega a comissão paulistana liderada pelos vereadores de São Paulo.

No relatório nacional, a comissão diz que JK morreu em decorrência do acidente de carro que aconteceu naquela noite de 22 de agosto de 1976, quando o ex-presidente viajava pela rodovia Presidente Dutra, perto do município de Resende, no sul do Estado do Rio de Janeiro.

JK estava em um veículo modelo Opala, dirigido pelo seu motorista Geraldo Ribeiro. O automóvel foi atingido por um ônibus da viação Cometa e bateu de frente com um caminhão que vinha no sentido oposto.

Para a Comissão Municipal de SP, entretanto, o motorista Geraldo Ribeiro teria sido alvo de um disparo de revólver antes do acidente e que as marcas da colisão com o Opala no ônibus da viação Cometa foram forjadas pela polícia fluminense naquela época.

 

 

Fonte – Terra Magazine

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