Comissão da Verdade lista 434 mortos

Documento de 4,3 mil páginas cita tortura sofrida por Madre Maurina como um dos casos ‘mais dramáticos’

Dois anos e sete meses após a sua criação, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) entregou ontem relatório final com 4.328 páginas apontando 377 pessoas como responsáveis por torturas e mortes durante a ditadura militar (1964-1985).

A comissão listou 434 mortos e desaparecidos no período ditatorial. Entre eles está Nestor Vera, nascido em Ribeirão Preto, em 1915. Ele atuou como liderança sindical e integrou a direção do Partido Comunista do Brasil (PCB). Em 1964, com o golpe militar, Nestor perdeu os direitos políticos e passou a viver na clandestinidade.

Ele foi visto pela última vez em 1º de abril de 1975, quando tinha 59 anos, em uma farmácia de Belo Horizonte (MG). Segundo a CNV, ele foi sequestrado pelos militares e morto com dois tiros à queima roupa. Até hoje, seus restos mortais não foram localizados.

Segundo a prefeita de Ribeirão Preto, Dárcy Vera (PSD), o nome de Nestor era citado constantemente por seu avô como sendo membro da família, mas ela não sabe qual o grau de parentesco. “Ele [avô] dizia que ninguém sabia de seu paradeiro”, disse a prefeita ao A Cidade, em março.

Local

Ribeirão Preto também é citado no relatório da CNV pelas torturas e abusos sexuais sofridos por Maurina Borges da Silveira (1926-2011), conhecida como Madre Maurina.

Ela foi presa pelos militares acusada de fornecer o abrigo Lar Santana para guerrilheiros da Faln (Forças Armadas de Libertação Nacional) imprimirem o jornal O Berro.

“O caso da irmã Maurina foi um dos mais dramáticos, no qual a condição de mulher e religiosa foi vilipendiada barbaramente”, cita o relatório da CNV, tomando por base relato de Áurea Moretti.

Em depoimento à Comissão da Verdade da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Ribeirão Preto, em junho deste ano, o irmão de Maurina, Frei Manoel, confirmou que ela sofreu abusos sexuais, inclusive choque em seus seios e genitais, mas negou que a relação tenha sido consumada.

O relatório da CNV cita, também, a prisão de dois professores da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão (ver infográfico).

 

Relatório da Comissão da Verdade cita casos de Ribeirão Preto


Comissão da OAB de Ribeirão ouviu 11 pessoas

Em junho, a OAB de Ribeirão Preto instalou a Comissão da Verdade local para apurar abusos praticados pela ditadura militar no município, focando principalmente violações legais.

Já foram ouvidas 11 pessoas. Segundo o presidente da Comissão, Feres Sabino, a conclusão dos trabalhos deve ocorrer no primeiro semestre de 2015, com a publicação do relatório final e de um livro. Todos os depoimentos são gravados em vídeo e serão preservados.

Há detalhes das torturas praticadas no quartel militar de Ribeirão em 1969, quando membros da Faln foram presos. Na ocasião, Sérgio Paranhos Fleury, citado pela CNV como um dos maiores torturadores, veio de São Paulo para aplicar pessoalmente torturas como espancamento, choque elétrico e pau de arara.

Estado torturador é citado

Em seu relatório final, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) concluiu que  torturas e violações aos direitos humanos praticadas entre 1946 e 1988, principalmente durante a ditadura militar, faziam parte de uma política de Estado.

“Está perfeitamente configurada a prática sistemática de detenções ilegais e arbitrárias e de tortura, assim como o cometimento de execuções, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres por agentes do Estado brasileiro”, diz o relatório final.

Entre os que sofreram tortura está a presidente Dilma Rousseff (PT). Ontem, durante a solenidade de entrega do relatório, ela chorou.

A Comissão emitiu 29 recomendações ao Estado brasileiro. A primeira delas é, justamente, que as Forças Armadas reconheçam que violaram os Direitos Humanos.

O relatório cita, também, que os torturadores não estão amparados pela Lei de Anistia, e por isso devem responder criminal, civil e administrativamente.

Os membros da CNV pedem, ainda, a Polícia Militar sob responsabilidade dos estados seja extinta.

 

Fonte – A Cidade

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *