Conheça a história do ‘Árvore das Palavras’: um jornal negro contra a ditadura

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O projeto foi idealizado pelo jornalista e escritor Jamu Minka, que queria criar um canal que ultrapassasse os muros da universidade | Foto: Reprodução/OperaMundi

 

O site Opera Mundi inaugura neste domingo (19/11) uma série de reportagens, com vídeos, sobre a imprensa alternativa no Brasil durante a ditadura militar. A matéria sobre o jornal “Árvore das Palavras”, ligado ao movimento negro e republicada abaixo, abre a série. 

São Paulo, meados da década de 70. As universidades brasileiras borbulhavam com jornais “nanicos” assinados por estudantes que faziam resistência à ditadura civil-militar. Nelas, o movimento negro tentava ganhar força em um ambiente que tinha portas fechadas aos que não pertencessem às elites do país. A criação de jornais independentes foi um dos sinais dessa luta – e, neste contexto, surgiu o “Árvore das Palavras”.

O “Árvore” foi idealizado pelo jornalista e escritor Jamu Minka, que queria criar um canal que ultrapassasse os muros da universidade, atingindo diretamente o povo negro, em uma proposta unificadora. A ideia era inspirada em experiências ocorridas em Angola e Moçambique, onde havia a proposta de uma discussão política levada a cabo em uma linguagem mais simples. O nome alude à tradição africana de se reunir sob as árvores de baobá para ouvir a palavra dos mais velhos.

A imprensa ligada ao movimento negro, de luta por direitos e de combate ao racismo, tem longa tradição na história brasileira. Entre os títulos, destacaram-se na primeira metade do século XX “O Clarim d’ Alvorada”, que circulou de 1924 a 1932, e “Quilombo”, fundado em 1948 for Abdias do Nascimento.

“Uma das coisas que sempre ficou como disposição nossa foi de retomar a imprensa negra. Então o Jamu veio com essa proposta. Nós começamos a fazer esse jornal, como era prática do movimento estudantil na época. Num primeiro momento, em um mimeógrafo; depois, com aquelas impressoras que permitiam fazer textos em A4”, afirma Rafael Pinto, entao estudante de ciências sociais na Universidade de São Paulo (USP) e membro da Núcleo Negro Socialista.

Ele conta que, antes de o “Árvore” surgir, a militância já havia começado a distribuir materiais. “Inicialmente, nós fizemos textos de negro para negro e nós pegávamos temas que achávamos relevantes, rodávamos e distribuíamos onde nós encontrávamos o povo negro”, diz.

Outro membro que estava presente na criação do jornal e que permaneceu até o fim de sua circulação foi o então estudante de economia Milton Barbosa. Para ele, a elaboração do jornal se deu por conta da “necessidade de ter um meio de comunicação”. “Nós discutíamos a necessidade de criar alguma coisa que levasse nossa mensagem”, diz. O objetivo era o de fazer “discussões com os setores de esquerda no Brasil, falávamos com eles da necessidade de falar [dessas] pautas”.

‘Clandestino da década de 70’

O “clandestino da década de 1970”, como também ficou conhecido o jornal, era impresso sob segredo no Centro Acadêmico de Economia da USP, em um período no qual a questão racial era uma pauta censurada pela ditadura. Os fundos para a impressão do periódico eram angariados coletivamente entre os membros, que participavam de todo o processo de criação do periódico, da diagramação à distribuição.

Os autores do jornal não recordam exatamente o ano de lançamento do primeiro número, mas há registros de edições a partir de 1974. Também não se sabe quantas foram lançadas. O jornal não tinha uma periodicidade definida, já que, segundo Pinto, os exemplares iam às ruas quando os membros sentiam necessidade para tal. O “Árvore das Palavras” circulava no viaduto do Chá, na praça da Liberdade (ambos na região central da capital paulista) e nos bailes negros que também começavam a ser organizados em São Paulo.

Suas pautas trataram de temas relacionados ao encarceramento, trabalho doméstico, questões femininas, cotas e outras. As discussões trazidas pelo “Árvore” ajudaram a marcar o 20 de novembro – data da morte de Zumbi dos Palmares – como Dia da Consciência Negra.

E, é claro, a censura ficava de olho. Segundo o livro Histórias do movimento negro no Brasil: Depoimentos ao CPDOC, organizado por Verena Alberti e Almicar Araujo Pereira, toda a imprensa negra estava sendo observada pelas instituições de fiscalização da ditadura. Além do “Árvore”, outras iniciativas semelhantes também eram acompanhadas de perto pelo Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão repressivo do governo militar.

Cultura independente

Barbosa relata que o jornal começou um trabalho “para discutir essa questão do racismo, da violência policial, a necessidade de ter uma cultura independente, que evitasse comercialização, porque já tinha gente querendo ganhar dinheiro com aquela cultura, aquele samba, a dança”.

Segundo ele, o “Árvore das Palavras” também trabalhava “arrebanhando pessoas pro processo de luta e de enfrentamento à alienação”. “Então, às vezes, chamávamos pra lugares que estavam tendo atividades, reuniões”, conta.

Para Barbosa, os anos de existência do jornal marcam o início de uma luta que já dura mais de 40 anos, muito por conta do diálogo que o “Árvore” desenvolveu com outros periódicos e entidades de forte concentração negra. “Nós desenvolvemos isso em escolas de samba, nos terreiros de candomblé e umbanda, nos grupos culturais da periferia, grupos de capoeira”, afirma.

Junto com períodicos de mesma temática, como o “Jornegro” e “Tição”, o “Árvore das Palavras” foi responsável pela inauguração de debates que geraram unidade ao movimento negro no Brasil e que culminaram na criação do Movimento Negro Unificado, em 1978, onde Pinto e Barbosa tiveram também um papel de destaque. A criação do MNU consolidou de vez a força da militância negra no país.

O momento que o jornal parou de circular não é preciso. Ocorreu entre o final de 1978 e o começo de 1979, quando o movimento negro passou se organizar dentro de grupos mais fortes e com mais autonomia. “Como o ‘Árvore’ foi uma ferramente coletiva, não teve um ‘porque ele acabou’. Surgiram outros instrumentos, outras ferramentas, e ele foi deixado de lado. Aquela forma de fazer já não cabia mais, principalmente com o surgimento do MNU, que queríamos que fosse uma organização que unificasse todos os movimentos negros”, diz Rafael Pinto.

Fonte – Opera Mundi

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